Ciclos
Naquele dia eu estava nervoso por vários motivos. À nossa frente estava nosso último inimigo, mais forte do que todos os anteriores, mais temível do que todos que já enfrentamos e, para nossa angústia, em maior número também.
Nossa única vantagem era o terreno elevado e o fosso atrás de nós, que serviria como armadilha. A isca seríamos nós, os que estávamos na linha de frente. Nossa missão era dar a vida para atrair aqueles guerreiros até o alto da colina, fazendo-os escorregar e cair no fosso, onde homens os esperariam do outro lado com arcos e lanças em punho, para matá-los como gado.
Se conseguíssemos fazer isso, o número de inimigos cairia em grande escala e a vitória final, estaria mais perto.
Meu nervosismo era causado também pela preocupação de quem eu havia deixado em casa. Minha mulher grávida, com a criança prestes a nascer, implorara para que eu não lutasse nessa última batalha, alegando que eu estava deixando para trás não uma pessoa, mas duas.
Dizia que a criança não merecia crescer sem nunca ter visto o rosto do pai e, se eu morresse nessa batalha, estaria condenando a minha própria esposa à uma vida miserável e, quem sabe o que aconteceria com ela caso eu morresse?
Minha mulher sempre fora uma pessoa um tanto quanto amarga, provavelmente por causa das coisas que já viu na vida, mas mesmo assim, era uma boa pessoa e eu tinha certeza de que seria uma mãe maravilhosa.
No fundo, eu sei que ela entende a importância da minha participação naquela batalha, sendo o segundo em comando, não poderia abandonar meus companheiros nem mesmo se eu quisesse, senão não só eu sofreria as consequências, como minha família também. E isso, com certeza seria muito pior do que morrer lutando. Portanto, lá estava eu, com a lança em uma mão, escudo na outra e espada na cintura.
Nosso comandante fez um discurso como nunca antes, ele nos animou de uma forma tão pura e sincera, que a impressão que eu tive, é que os Deuses que já nem existem mais em nosso mundo, estavam ali, nos assistindo e nos apoiando.
O comandante disse que não havia outro lugar para estarmos, senão ali, naquele momento. Disse que seríamos aclamados como heróis e ao mesmo tempo, considerados como demônios. Disse que nós somos os responsáveis por fechar um ciclo e dar início a outro.
Se as crianças deles não chorarem, as nossas chorariam. Disse ele. E nessa hora, pensei em minha criança que ainda não havia nascido e, temi por ela. Apertei mais forte a minha lança, sentindo um fogo me consumir por dentro.
O comandante continuou dizendo que se as mulheres deles não ficarem viúvas, as nossas ficariam. Mais um aperto no peito.
Disse ainda que se aqueles homens estiverem vivos naquele dia, no outro, nós não estaríamos. Terminou então seu discurso nos pedindo coragem e ânimo, pedindo-nos nossa força emprestada e que naquele dia, pela última vez, que fossemos assassinos com ele.
Eu nunca vi aqueles homens com tanta fúria nos olhos como nesse dia. No momento seguinte, todos levaram para o campo de batalha exatamente o que nosso comandante nos pediu, espada, escudo e ódio. Inclusive eu.
É estranho como numa batalha as coisas ficam claras. Quem vê de fora, só enxerga sangue, confusão e membros voando. Mas para quem está dentro, parece que o tempo desacelera, tudo fica mais devagar e, avançar é tudo o que conseguimos fazer. Estocar, aparar, desviar e matar, se tornam coisas naturais e, o objetivo é a única coisa que fica clara na nossa mente. Avançar, avançar e continuar avançando.
Mais tarde, fiquei sabendo que nem sequer precisamos usar a tática do fosso, pois nossos homens destroçaram o exército inimigo. Quando os de trás viram que a linha de frente estava num frenesi imparável, se juntaram a nós, nos empurrando para frente e nos dando a oportunidade de saciar nossa sede de sangue.
Os inimigos, vendo que mesmo com alguns de nós caindo, o restante avançava como um só homem, temeram e se sentiram desencorajados.
Muitos da retaguarda deles fugiram, deixando os da frente sem proteção e abrindo brecha para que fossem flanqueados, o que aproveitamos com maestria.
Devido a loucura da batalha, não fizemos reféns, não fizemos escravos e nem mesmo poupamos vidas para que partissem em paz. Simplesmente matamos e continuamos a matar, até não sobrar inimigo vivo no campo de batalha.
Quando tudo acabou e os ânimos se acalmaram, vimos o quão terríveis podemos ser no calor do momento. Particularmente, lamentei esse fato e, lamentei mais ainda porque nem mesmo conseguia abrir a mão para soltar o cabo da espada. A arma parecia ser uma extensão do meu próprio corpo. E enquanto estava coberto de sangue, a tal ponto de apenas meus olhos ficarem visíveis naquela máscara vermelha, eu chorei. Chorei pelas vidas que tirei desnecessariamente e chorei por enxergar quem eu poderia me tornar se não tivesse cuidado.
Alguns dias depois, cheguei em casa e vi que minha mulher estava com uma linda menina nos braços. Uma criança com o rosto parecido com o da mãe, mas com certeza, aqueles olhos eram iguais aos meus.
Tive a notícia também de que, um dos meus servos perdeu sua mulher durante o parto, mas que a criança parecia estar bem. Garanti então que aquele menino tivesse sua própria ama de leite e, ao pai, ofereci um melhor serviço em minhas propriedades para que tivesse melhores chances de criar seu filho, pois aquele homem me servira fielmente e muito bem durante as guerras. Portanto, merecia meu respeito, minha gratidão e minha proteção.
Mais tarde, naqueles dias, houve uma celebração na capital para comemorar a vitória de nosso país e finalmente, o fim da guerra que durou tanto tempo. Durante aquela festividade, algumas pessoas foram honradas com títulos e posições. No meu caso, me tornei Barão de Nearin, um senhor de terras e de homens. Passei a morar num enorme salão e dali, gerenciava todo um feudo.
E assim, nosso país teve sua merecida paz.
O comandante continuou dizendo que se as mulheres deles não ficarem viúvas, as nossas ficariam. Mais um aperto no peito.
Disse ainda que se aqueles homens estiverem vivos naquele dia, no outro, nós não estaríamos. Terminou então seu discurso nos pedindo coragem e ânimo, pedindo-nos nossa força emprestada e que naquele dia, pela última vez, que fossemos assassinos com ele.
Eu nunca vi aqueles homens com tanta fúria nos olhos como nesse dia. No momento seguinte, todos levaram para o campo de batalha exatamente o que nosso comandante nos pediu, espada, escudo e ódio. Inclusive eu.
É estranho como numa batalha as coisas ficam claras. Quem vê de fora, só enxerga sangue, confusão e membros voando. Mas para quem está dentro, parece que o tempo desacelera, tudo fica mais devagar e, avançar é tudo o que conseguimos fazer. Estocar, aparar, desviar e matar, se tornam coisas naturais e, o objetivo é a única coisa que fica clara na nossa mente. Avançar, avançar e continuar avançando.
Mais tarde, fiquei sabendo que nem sequer precisamos usar a tática do fosso, pois nossos homens destroçaram o exército inimigo. Quando os de trás viram que a linha de frente estava num frenesi imparável, se juntaram a nós, nos empurrando para frente e nos dando a oportunidade de saciar nossa sede de sangue.
Os inimigos, vendo que mesmo com alguns de nós caindo, o restante avançava como um só homem, temeram e se sentiram desencorajados.
Muitos da retaguarda deles fugiram, deixando os da frente sem proteção e abrindo brecha para que fossem flanqueados, o que aproveitamos com maestria.
Devido a loucura da batalha, não fizemos reféns, não fizemos escravos e nem mesmo poupamos vidas para que partissem em paz. Simplesmente matamos e continuamos a matar, até não sobrar inimigo vivo no campo de batalha.
Quando tudo acabou e os ânimos se acalmaram, vimos o quão terríveis podemos ser no calor do momento. Particularmente, lamentei esse fato e, lamentei mais ainda porque nem mesmo conseguia abrir a mão para soltar o cabo da espada. A arma parecia ser uma extensão do meu próprio corpo. E enquanto estava coberto de sangue, a tal ponto de apenas meus olhos ficarem visíveis naquela máscara vermelha, eu chorei. Chorei pelas vidas que tirei desnecessariamente e chorei por enxergar quem eu poderia me tornar se não tivesse cuidado.
Alguns dias depois, cheguei em casa e vi que minha mulher estava com uma linda menina nos braços. Uma criança com o rosto parecido com o da mãe, mas com certeza, aqueles olhos eram iguais aos meus.
Tive a notícia também de que, um dos meus servos perdeu sua mulher durante o parto, mas que a criança parecia estar bem. Garanti então que aquele menino tivesse sua própria ama de leite e, ao pai, ofereci um melhor serviço em minhas propriedades para que tivesse melhores chances de criar seu filho, pois aquele homem me servira fielmente e muito bem durante as guerras. Portanto, merecia meu respeito, minha gratidão e minha proteção.
Mais tarde, naqueles dias, houve uma celebração na capital para comemorar a vitória de nosso país e finalmente, o fim da guerra que durou tanto tempo. Durante aquela festividade, algumas pessoas foram honradas com títulos e posições. No meu caso, me tornei Barão de Nearin, um senhor de terras e de homens. Passei a morar num enorme salão e dali, gerenciava todo um feudo.
E assim, nosso país teve sua merecida paz.
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Este conto tem a função de dar espaço para que os leitores interajam com o autor.
Minha proposta é pedir para que vocês escolham os nomes dessas duas crianças que nasceram. Porque daqui pra frente, é a história deles que vamos contar.
Os nomes sugeridos serão divulgados para votação no Instagram @homemdataverna
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