Já passava das sete da noite e agora nuvens escuras anunciavam que uma tempestade estava chegando. A garoa fina juntamente com o vento gélido davam uma pequena amostra do que estava por vir. Kennick foi guiando seu cavalo por ruas estreitas de terra batida. Se não fosse pelas luminárias do lado de fora de algumas casas e os candeeiros em postes em alguns pontos
das ruas, o percurso seria ainda mais demorado para o rapaz. Algumas ruas eram tão estreitas que as casas ficavam muito próximas umas das outras, de modo que já seria difícil passarem três pessoas ombro a ombro, pior ainda seria passar com um cavalo naquela semi-escuridão e com várias tralhas no meio do caminho. Por isso, kennick preferia evitar essas ruas e para chegar ao seu destino, teria que dar voltas e voltas por ruas mais espaçadas e luminosas. Até que enfim chegou a uma das ruas principais.
Caminhava sem pressa guiando seu cavalo pela rua principal pavimentada que levava ao norte da cidade, chegou por fim num cruzamento onde subindo uma rua à esquerda, chegaria na pousada em poucos minutos. No trajeto, Kennick pensava no que poderia fazer a seguir em sua busca por seu mentor. Já que havia tentado de tudo, desde perguntar aos pouquíssimos amigos que Askelad ainda tinha, até chegar a ferir alguém em busca de informações e nada disso ter trazido uma única resposta sequer, estava agora perdido e se via sem opções. O dono da pousada para onde estava se dirigindo era um desses poucos amigos de Askelad e kennick achava que talvez fosse o único com quem ele ainda não havia falado sobre o assunto.
Enquanto andava, o rapaz se perguntava se o dono da pousada não teria alguma dica ou se conhecia alguém do passado de Askelad, qualquer coisa que pudesse lhe dar novas diretrizes sobre o que fazer em suas buscas. E foi guiado por esse pensamento que Kennick não hesitava mais em ir até esse lugar. Pois nas outras vezes em que esteve na cidade, não tinha como se encontrar com o homem, pois o rapaz logo tinha que voltar para casa por causa de suas obrigações.
Mas também havia um outro motivo que o deixava receoso de ir à pousada.
Já ia chegando quando notou que um homem estava na porta ao lado de fora do prédio. Viu também que esse homem deu uma ordem à um garoto que estava ao seu lado. Imediatamente, o garoto correu na direção de Kennick e pediu as rédeas de seu cavalo. Ao entregá-las ao garoto, Kennick reconheceu que este era Lendri, sobrinho do dono da pousada e irmão mais novo de Lori, a garota com quem o rapaz um dia teve uma relação.
E esse era o outro motivo que o deixava receoso quanto à ir para esse lugar. O rapaz não sabia o que dizer à Lori, sobrinha do dono da pousada. No passado, os dois nutriam sentimentos um pelo outro e em segredo eles se relacionavam. Em segredo porque Askelad e a mãe da moça mantinham uma relação públicamente e, se caísse nos ouvidos do povo que seus filhos se relacionavam, a fama dos pais seria da mais impura possível.
Não porque um Lied estivesse num relacionamento com uma humana, pois relacionamentos entre as raças não eram nenhum Tabu já fazia séculos. Vez ou outra se podia ver um híbrido aqui e ali, fruto de relações entre pessoas de raças diferentes. O que seria considerado um Tabu é o relacionamento de duas pessoas que foram criadas praticamante juntas, como irmãos.
Porém, com o tempo a mãe de Lori e Lendri adoeceu e chegou a falecer. Askelad passou a frequentar cada vez menos a pousada desde então, já que o lugar lhe trazia lembranças sobre a mulher que ele uma vez amou. Consequentemente, Kennick e Lori passaram a se ver cada vez com menos frequência e agora sua relação de antes já não existia. Por isso Kennick passou a ter um receio de encontrar a garota, pois não sabia exatamente como se portar diante dela ou falar sobre o assunto. Também não sabia qual a seria a reação da moça ao vê-lo novamente, depois de tanto tempo sem uma única palavra de despedida entre eles.
De volta de seu breve devaneio, Kennick, ao entregar de bom grado as rédeas, jogou uma moeda de cobre ao garoto, que sorriu ao ver que ganhara o dia.
— Faz tempo que não te vemos por aqui. — E acariciando o focinho do animal acrescentou. - Ele será muito bem cuidado, pode confiar. — Disse guardando a moeda num bolso da calça.
Lendri ia conduzindo o cavalo para a parte de trás da pousada, onde ficava o estábulo. Kennick o observou se afastar e ainda custava a acreditar que aquele outrora pequeno garoto que vivia correndo atrás do tio, havia crescido bastante em tão pouco tempo. Devia ter seus onze ou doze anos agora.
Acenou novamente para o garoto e foi recebido com um aperto de mãos pelo homem que o estava aguardando na porta de entrada da pousada. Esse homem era Lenil, tio de Lori e Lendri e o proprietário do local.
— O que você tem dado para ele comer? Está enorme. — Disse Kennick enquanto com sua mão direita apertava a mão do velho Lenil em cumprimento e com a outra mão, indicava para trás com o polegar, na direção do garoto.
— Impressão sua, senhor Kennick. — Respondeu Lenil. — É que faz tanto tempo que não o vê que as diferenças parecem ser maiores do que realmente são. Ele ainda é tão pequeno e magro que parece que vai quebrar a qualquer momento, coitado.
— Pra mim ele parece muito bem. — Kennick virou-se outra vez para trás tentando ver o garoto que conduzia seu cavalo enquanto afagava o focinho do animal e falava com ele.
— É um bom garoto. — Disse Lenil dando de ombros e ao mesmo tempo olhando para cima quando um trovão rasgou o céu da noite com um estrondo. — Mas vamos entrando, vamos entrando. Seremos lavados pela chuva se ficarmos aqui fora. — Disse o sujeito já entrando no salão de recepção da pousada.
Antes mesmo de entrar, Kennick já notou que o lugar estava diferente, um novo letreiro bem maior que o anterior pendia por duas correntes da cobertura na entrada, a placa dizia "O Pastor Perdido" e exibia um desenho em perfil de um homem andando com um cajado na mão. O rapaz sorriu de prazer ao notar essas pequenas mudanças no lado de fora da pousada.
— É um prazer vê-lo novamente, senhor Kennick. — O homem começou o diálogo enquanto adentravam no salão de recepção.
— É ótimo te ver também, Lenil. E você está ótimo, pelo visto tem se alimentado bem esse tempo todo, hã? — Kennick deu um passo para trás a fim de observar melhor o homem. E o que via era um sujeito de meia idade com uma boa aparência. Seu cabelo curto e barba cheia eram de um grisalho
prateado, que davam um ar de experiência na vida. Seus olhos pequenos e negros estavam sempre espertos, olhando constantemente para todos os lugares. Vestia trajes simples mas de boa qualidade e seus modos eram modestos e ao mesmo tempo, sofisticados. Lenil não era o tipo de homem que bajulava as pessoas demasiadamente, como fazem a grande maioria dos donos de pousadas, tão somente deixava claro que estaria disponível a qualquer momento que a pessoa precisasse e os tratava com cordialidade, deixando-os à vontade para fazer suas coisas. kennick pensou que essa era de fato a melhor conduta que alguém que era dono de algum negócio deveria ter para com seus clientes.
Logo no grande salão de recepção da pousada, Kennick percebeu que o lugar também estava diferente. Haviam algumas mesas espalhadas por este salão principal, para que os hóspedes pudessem fazer suas coisas corriqueiras à vontade ou receber alguém para uma conversa mais informal.
— Gostei do que você fez aqui, Lenil. — Disse Kennick olhando em volta. — O lugar já era bastante agradável há uns tempos atrás, mas agora está... — Hesitou um instante tentando achar a palavra perfeita para a descrição que queria fazer, porém não conseguiu achar nada que não parecesse forçado demais, mas que também não ofendesse o homem. — Agora está melhor. Se me permite dizer.
— Obrigado, senhor Kennick. Eu também acho que ficou muito melhor. — Lenil falava enquanto dava a volta no balcão de recepção para que assumisse o posto de recepcionista. — Reformamos este salão principal e o salão ao lado também. — Disse indicando um outro salão que ficava a vários metros atrás de Kennick. O rapaz se virou e de onde estava, pôde ver algumas mesas lá dentro. O salão parecia ter o mesmo tamanho que este principal, mas a quantidade de mesas era maior. Como um refeitório por assim dizer.
— Ficou muito bom mesmo, Lenil. E notei que no painel atrás de você estão faltando várias chaves. Isso deve significar que os negócios estão indo bem para você, eu espero. — Haviam dezesseis espaços para chaves no painel, sugerindo que haviam dezesseis quartos ao todo. Na ocasião, haviam somente cinco chaves em seus respectivos lugares.
— Sim, com certeza estão. Essa reforma deu uma novo ar à hospedaria. Me orgulho em dizer que está mais aconchegante do que antes. — Kennick notou que o sorriso do homem era genuíno quando falava sobre seu estabelecimento. — Presumo que o senhor queira ficar com o quarto de costume? — Disse o homem e imediatamente se virou para tirar uma chave do quarto número quatorze, entregnad-a ao rapaz logo em seguida.
— Seria ótimo. — Disse o rapaz pegando a chave do quarto que ficava no segundo e último andar da pousada. — No caminho para cá até me perguntei
se o quarto estaria disponível. — E sacudindo a chave segurando-a pela base, acrescentou: — É uma sorte que esteja. Para mim, é o melhor quarto do lugar.
Como a pousada ficava numa região elevada em Baum, o quarto dava uma visão privilegiada de boa parte da cidade. Isso foi uma das lições que Askelad ensinou ao rapaz.
"— Sempre dê preferência em estar no lugar mais alto. — Dizia ele — Assim, você pode ver quem se aproxima e pode planejar uma melhor defesa e um contra-ataque em seguida." — Como Askelad era ex-militar, seus pensamentos sempre voltavam para questões táticas.
Kennick tirou uma bolsinha de couro de um bolso interno de sua jaqueta, entregou cinco moedas de prata ao homem e, em seguida, guardou a chave num outro bolso interno do outo lado da jaqueta grossa que vestia.
— Se o senhor quiser, posso te servir uma bebida ou uma refeição. — Disse enquanto pegava as cinco moedas e as guardava numa caixa de madeira que ficava logo abaixo do balcão, ao alcance de suas mãos. Agora o homem saía de trás do balcão e se dirigia para próximo do rapaz novamente. — Como pode ver, pedi para colocarem algumas mesas menores nos cantos do salão, para o caso de alguém querer beber sozinho ou ter uma conversa em particular. A propósito... — Se inclinou para perto de Kennick como quem quisesse falar em segredo. — Essa idéia das mesas menores para uma bebida casual foi idéia do meu senhor Askelad. — Completou o homem dando uma piscadela ao rapaz e abrindo um sorriso, como se quisesse dizer que os gostos de Askelad por bebidas fossem um segredo.
— Aquele velho sempre gostou de beber no seu canto e em paz. Não me admira que essa idéia tenha vindo daquela cabeça ardilosa de bêbado. — O comentário de Lenil fez o rapaz se lembrar sorrindo das vezes que Askelad se irritava quando estava bebendo e alguém aparecia para incomodá-lo.
— E como estão indo as buscas por ele? — Lenil havia mencionado Askelad só para poder levar a conversa onde queria. — Acredito que o senhor saiba que quando está na cidade, só o que se fala é sobre você estar procurando por ele. Conseguiu alguma pista?
— Até agora nada, Lenil. Já procurei em todos os lugares possíveis e imagináveis. Vilas próximas de onde moramos, nas profundezas da floresta, perguntei em tudo quanto é lugar e pra todos que tem uma ligação com ele, até para quem não tem também já perguntei e nem sombras dele ainda. Nem aqui em Nolas, nem em Bortul. Eu não sei mais o que posso fazer, Lenil. Não sei mesmo. — A voz do rapaz quase sai embargada por causa desse desabafo.
— Eu nem posso imaginar como é isso, Senhor Kennick. Se a doença da minha irmã não a tivesse matado, acho que essa preocupação teria. Se eu pudesse ajudar de alguma forma, ficaria feliz em fazê-lo.
— Obrigado, Lenil. Você sempre foi um bom amigo para ele. Mas não acho que há muito o que se possa fazer.
— Mas e a guarda da cidade? Eles devem ter conseguido algo. Já faz tempo demais, não é?
— Esses desgraçados da guarda não se dão o trabalho nem de limpar a própria bunda. Quanto mais cumprir com seu dever corretamente. — Kennick falava com perceptível raiva agora. Lenil até se assustou e olhou nervoso para a porta que dava para a rua, tentando ver se algum guarda não estaria passando por ali naquele exato momento. O que para seu alívio, não foi o caso.
— isso é inacreditável. Já faz o que? Um mês que Askelad está desaparecido? — Lenil perguntava como que para si mesmo.
— Quase isso. — Respondeu kennick concordando com a cabeça. — Se eu tivesse os recursos que a guarda tem, com certeza já o teria encontrado.
Nessa hora, uma das moças que trabalham na pousada passou por onde eles estavam e ao notar que um Lied estava conversando com seu patrão,ficou apreensiva em perguntar se Lenil precisava de alguma ajuda.
— Cilian, querida. Pode buscar uma garrafa de cidra para mim, por favor? —
A moça acenou com a cabeça e se dirigiu ao segundo salão onde ficava a cozinha.
Kennick olhou para o homem com curiosidade. Antes que tivesse tempo de perguntar algo para Lenil, a moça retornou com uma garrafa contendo um líquido verde claro transparente e dois copos.
— Fique no meu lugar um momento, sim? — Pediu o homem à sua funcionária. Tão prontamente ela recebeu o pedido e já estava na beira do balcão, dando a volta na enorme peça única de madeira maciça trabalhada. — Obrigado, querida. — Disse ele após ver que a moça já assumira o posto de recepcionista. — Senhor Kennick, venha, vamos nos sentar um pouco, o senhor deve estar cansado da viagem. — Com o braço esquerdo, indicou uma mesa mais afastada para que eles se sentassem e tivessem mais privacidade para conversar.
Kennick admirava Lenil pela forma que ele tratava as pessoas. Era de fato um homem gentil. Geralmente os donos de pousadas e tavernas tratam seus funcionários de maneira ríspida e grosseira, como se não merecessem nem o parco salário que recebem por tranbalhar nesses lugares. Mas não Lenil, ele sabia que para ser bem sucedido nos negócios, precisaria de toda uma equipe que estivesse bem disposta para trabalhar com ele e por isso a sua pousada era uma das melhores de toda cidade.
— Estou mesmo cansado. — Disse kennick já pegando sua pesada mochila de viagem que havia deixado no chão, encostada junto ao balcão e passou a seguir Lenil. — Ficar várias horas em cima de um cavalo acaba com qualquer um. — Concluiu o rapaz.
Sentaram-se então e imediatamente Lenil abriu a garrafa, já servindo a bebida para os dois. Levantaram os copos em um brinde silencioso e tomaram uma boa golada da cidra.
— É surreal mesmo que a guarda ainda não tenha obtido nenhum resultado. — Recomeçou Lenil enquanto enchia novamente seus copos.
— A minha vontade é de enfiar uma faca em cada um desses bastardos. — Deu mais um bom gole na bebida antes de continuar. — Mas pela fama que a minha raça tem em todo país, se eu não tomar cuidado ao falar com alguém, não vai demorar muito para que eles me prendam. Às vezes tenho a impressão que alguém vai me apedrejar pelo simples fato de eu dizer "bom dia". — Agora Kennick falava num tom mais grave que o normal.
— Eu nem sequer posso imaginar como isso deve estar sendo difícil para você, mas quero que saiba de uma coisa. Todos nós temos uma natureza sombria, um lado perverso que está só esperando uma pequena oportunidade para assumir o controle de nossas vidas e espalhar o caos. Eu acredito que isso não tem nada a ver com raça, credo ou seja lá o que for. Todos nós temos um limite, senhor Kennick. E devo dizer que estou deveras surpreso pelo esforço que tem feito pra não perder o controle.
— Se dependesse de mim, eu não colocava mais os pés nessa cidade. — Kennick se arrependeu do que disse no exato momento em que as palavras saíram de sua boca. Olhou para o velho amigo de seu mentor e se sentiu constrangido pelo olhar de reprovação que este lhe dera. — Claro que vocês são outra história, Lenil. — Tentou contornar a situação com um tom mais conciliatório — Você sabe que Askelad e eu temos vocês na mais alta estima. Que somos como família.
— Sim, nós sabemos. — Lenil deu um sorriso que mostrava que compreendia que o rapaz não quis ser rude. — O sentimento é recíproco. Se minha irmã estivesse viva, quem sabe todos nós não moraríamos juntos? A Lori iria adorar ter você como um irmão. Vocês se davam bem até tempos atrás, não é?
Kennick corou ao ouvir o nome da moça, mas não quis deixar transparecer demais. Pois o tio dela não sabia sobre o relacionamento dos dois e temeu que com sua súbita mudança de comportamento à simples menção do nome dela, Lenil pudesse desconfiar de algo.
— Por falar na Lori, onde ela está? — Falou o mais rápido que pôde tentando parecer o mais natural possível, dando mais um gole na bebida e olhando para os lados, como se estivesse procurando por algo ou alguém.
— Pedi para que ela buscasse algumas especiarias que precisamos na cozinha e que tentasse falar com alguns dos nossos fornecedores. Você sabe, carne, algumas bebidas, essas coisas. — Disse Lenil abanando a mão, indicando que esse assunto era irrelevante agora. — Daqui a pouco ela deve chegar, creio eu. — De repente, Lenil se lembrou de algo e, pela breve expressão de espanto que fez, para Kennick pareceu que ele havia percebido o romance secreto que ele tinha com sua sobrinha. — Voltando ao assunto das buscas, eu não sei se já considerou o caso, senhor kennick... — Agora era Lenil quem olhava em volta, mas a sua preocupação era se alguém pudesse ouvir o que ele estava prestes a falar. Se inclinou sobre a mesa a fim de ficar mais perto do rapaz, de maneira que quando falasse, tivesse certeza de que só ele o escutaria. — Mas o senhor já tentou contratar alguém para esse tipo de serviço? — Agora ele encarava kennick com a esperança que ele também tivesse o cuidado de falar baixo.
— Sim Lenil, já pensei no caso. — Kennick começou a responder, aliviado por não ser nada do que pensara sobre Lori e ele. — Mas Askelad me treinou para ser como ele, seguir pistas e ocultar pistas, a arte da furtividade, sabe? E não é querendo me gabar, mas sou muito bom nisso. — Lenil ficou brevemente desapontado porque o rapaz não entendeu que era para falarem mais baixo, estava fazendo justamente o contrário, enaltecendo suas habilidades. Mas o que Lenil podia esperar? Em se tratando de experiências de vida, Kennick ainda era só um garoto afinal de contas, por mais que houvesse amadurecido mais rápido que as demais pessoas devido à criação que teve, para Lenil ele ainda era só um garoto e por isso não disse nada ao rapaz e nem tentou chamar sua atenção. — E eu que o conheço, — Continuou kennick — conheço suas manias e hábitos, que reconheço os sinais que ele costuma deixar quando estamos caçando. Se nem eu consigo achá-lo, não creio que seja possível outra pessoa fazer isso, por melhor que seja.
— Eu entendo, claro. ninguém seria melhor que o senhor em procurá-lo. Mas o senhor não acha que talvez possam existir pessoas com certa experiência nessa área? — Lenil ainda falava baixo e olhava constantemente ao redor com cautela. — Veja bem, eu fiquei sabendo que tem alguns homens na cidade. Homens de uma guilda chamada Punho Vermelho. Já ouviu falar neles?
— Já ouvi sim. Eles são uma guilda que prestam serviços de modo geral para a população. Bem como a guilda "larbon", a "passáro negro", "primeiro carvalho" e mais algumas centenas de guildas que existem em todo lugar dentro e fora de Nolas. Todas elas funcionam como qualquer outro comércio, tem sua base e pagam impostos como todos os outros negócios.
— Ou seja, todos eles são licenciados para fazer o que fazem. — Concluiu Lenil.
— Que é encontrar gado roubado, ou levar uma mensagem para alguém que está muito longe, ou até servir como escolta para alguém que se ache importante o bastante e que tenha dinheiro para pagar, coisas assim. — Complementou kennick. — E eu não sei em que eles podem me ajudar, Lenil.
Como que vou contratar alguém que está mais acostumado a serviços de escolta, para encontrar Askelad, que está desaparecido há semanas? Você deve entender que isso é mais complexo do que procurar gado. — Kennick não entendia onde Lenil queria chegar com aquela conversa. Para ele, suas habilidades de rastreamento superavam por muito as de alguém de uma guilda qualquer.
— Correto, mas existem algumas guildas que fazem mais que isso. Eu já ouvi histórias... — Mais uma vez Lenil parou no meio da frase e olhou ao redor, só para garantir que de fato ninguém estivesse por perto. Se aproximou mais do rapaz e indicou que ele fizesse o mesmo. Falava agora quase num sussurro. — Eu ouvi histórias que a punho vermelho faz todo tipo de serviço. TODO, senhor Kennick. E que também são bastante influentes tanto em Nolas, quanto em Bortul, em Frian e vários outros lugares.
— E você acha que eles são capazes de conseguir algo que nem eu e nem a guarda de Baum conseguimos em semanas? — Kennick entendia que o homem estava tentando ajudar, mas o que dizia não fazia o mínimo sentido à princípio.
— Como o senhor mesmo disse, quem garante que a guarda está mesmo procurando por ele? — Kennick assentiu em concordância. — E me desculpe a franqueza, sei que você foi treinado por Askelad e é muito bom no que faz. Mas acredito que lhe falte experiência em muita coisa, senhor kennick. — O rapaz franziu de leve o cenho ao ouvir essas palavras. — O senhor disse que já tentou de tudo e que não sabe mais o que fazer pra encontrá-lo. Bem, há ainda essa alternativa e talvez, a última. — Agora Lenil se voltou para trás, recostando as costas no encosto da cadeira e servindo mais uma rodada de bebida aos dois.
— Não sei, Lenil. Isso não me parece certo. Se eles fazem todo tipo de serviço como você diz, com certeza estão envolvidos com coisas ilegais ou algo do tipo. E você sabe que eu nem fiz nada para merecer a fama que tenho, se eu me aliar com gente assim, não vai demorar para que algo terrível aconteça comigo. — kennick estava um pouco ressentido pelo que Lenil disse sobre lhe faltar experiência. Mas sabia que havia verdade nisso. Assim, ficou com os pensamentos mais dispersos, tentando decidir o que faria.
— Eu entendo que há um risco e é de se pensar mil vezes antes de se envolver em assuntos dessa magnitude. Mas considere por quem o senhor estaria fazendo isso, Senhor Kennick. — Nesse momento Lenil bateu com o dedo indicador na mesa. — Eu só quis ajudar da forma que posso. E essa informação é toda ajuda que disponho no momento. — Lenil ergueu os ombros e fez um gesto mostrando as palmas das mãos para Kennick enquanto falava, como quem pede desculpas pelo pouco que tem. — Mas não se pressione e nem se sinta culpado por não se envolver com esse tipo de gente. O senhor faz bem em ficar longe de confusão.
— Não, Lenil. Você está certo. Eu devo a minha vida ao Askelad, me sinto mal é por ter titubeado nesses pensamentos de que eu estaria correndo perigo. Quando ele já está num perigo que eu nem sequer posso imaginar. Foi egoísmo da minha parte. — Olhou agora para Lenil com uma convicção renovada. — Onde posso encontrar alguém da punho vermelho? Sabe me dizer?
Lenil ficou em silêncio por um momento, mas sabia que sobre isso não havia muito o que se pensar. Apenas um lugar lhe vinha à mente.
— Eu sei que a taverna "Três flechas", aquela que fica próxima à ponte mais perto daqui, é um ótimo lugar pra se encontrar todo tipo de pessoa. Talvez, com um pouco de sorte o senhor acabe esbarrando com algum deles por lá. Ouvi dizer também que um velho chamado Rovard está na cidade por esses dias. Pelo que fiquei sabendo, ele é quem recebe as missões e as delega aos membros da guilda. O sujeito deve cuidar de toda burocracia que envolve a guilda e é responsável pelas coisas... como posso dizer? — Fez mais uma pausa tentando achar a palavra certa. — Legalizadas, digamos assim.
— Pelo visto você é bem informado sobre tudo, Lenil. — disse kennick com um sorriso sarcástico — Por acaso você não está envolvido com o tráfico de informações, está?
— Céus, senhor Kennick. Isso nem existe. — Lenil fingiu se ofender com a brincadeira do rapaz. — Mas veja bem, não estou te dando nenhuma certeza de nada. Só estou tentando ajudar. Askelad sempre foi gentil comigo e eu gostaria de retribuir mais diretamente se fosse possível, mas como o caso é delicado, temo que essa informação seja toda ajuda que eu possa oferecer no momento.
— Já é mais do que você poderia ter feito, Lenil. Se acontecer alguma coisa comigo e seu nome estiver relacionado ao meu. Você também correrá um grande perigo. — Kennick parou de falar abruptamente, percebendo o perigo no que tinha dito, olhou para o homem e viu como este estava de olhos arregalados, como que a hipótese do perigo acabara de lhe ocorrer. — Mas você pode ficar tranquilo, Lenil. Jamais mencionarei o seu nome quando entrar em contato com essas pessoas. Nunca seria capaz de colocar você ou a Lori em perigo. — fez um breve pausam depois continuou. — E Lendri também, claro. — Disse com um sorriso frouxo, esperando que o homem não percebesse esse deslize.
— Sei disso, senhor kennick. Mas é que a idéia me ocorreu só agora e só de pensar nessa possibilidade, o meu coração já acelera. — Kennick notou que a têmpora direita do homem estava suada.
— Mas isso não vai acontecer, você tem a minha palavra. — Kennick decidiu que era hora de sair dali, antes que o homem desistisse do plano e tentasse dissuadí-lo de ir atrás da punho vermelho, com medo do que isso poderia acarretar. — Bem, acho que vou aproveitar que o tempo está frio e vou agora mesmo para a três flechas. — Disse kennick se levantando da cadeira e se espreguiçando — Acredito que um pouco de comida quente vai me restaurar as energias.
— Se o senhor quiser esperar mais um pouco, posso pedir para prepararem algo para você comer.
— Ora vamos, Lenil. Você não pode chamar de comida essa coisa intragável que serve aqui. — Disse o rapaz com um largo sorriso.
— Até mesmo o péssimo senso de humor é como o de Askelad — Disse Lenil com um ar de falsa ofensa. — Mas está certo, posso pelo menos pedir para levarem suas coisas para o quarto?
— Seria ótimo. Não quero andar por aí com esse monte de tralha. — Entregou sua pesada mochila de viagem que levava na sela do cavalo e devolveu a chave do seu quarto para o dono da pousada.
Lá fora mais um estrondo ecoou nos céus.
— Só tome cuidado com essa chuva que está para cair. — Disse Lenil já acompanhando o rapaz até a porta. E da soleira, olhou para o céu negro no horizonte, dali pôde ver os relâmpagos que causavam enormes clarões azuis. — Parece até que o mundo vai desabar. — Conluiu o homem.
— Então é melhor eu me apressar antes que a chuva me pegue. Obrigado pela ajuda, Lenil. Daqui a pouco estarei de volta. — Disse Kennick já saindo da pousada.
— Que os deuses o favoreçam, Senhor Kennick. — O rapaz já estava do lado de fora quando acenou com a mão direita por cima do ombro.
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Saudações Rapazi.
Esse é o segundo capítulo de "Inevitável", uma história das Crônicas de Ellatas.
Espero que tenham curtido.
Podem deixar suas considerações aqui nos comentários ou nas redes sociais.
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Twitter: @Thiagoficcoes
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