Capítulo 05
Já passava das dez horas da noite, a porta da pousada estava fechada e antes de se dirigir à ela, Kennick observou a rua, com o intuito de ver se havia alguma movimentação perto da entrada. Pensou que se fosse visto daquele jeito, maltrapilho, sujo e ensanguentado, as pessoas logo fariam um escarcel e as coisas poderiam acabar da pior forma possível para ele. Muito provavelmente seria interrogado, acusado de algo e levado às autoridades. Portando, achou melhor esperar um pouco.
Não vendo movimento algum na pousada, nem de entrada, nem de saída, julgou que era seguro entrar. Bateu três vezes na porta com o punho fechado, poucos segundos depois, uma portinhola em formato retangular foi aberta. Cilian, a funcionária de Lenil, ainda estava cuidando do atendimento e, ao ver quem batia na porta, destrancou alguns ferrolhos e abriu apenas a parte esquerda da entrada para que o Lied pudesse passar.
A moça se assustou ao ver o estado de Kennick. Sua expressão ia do espanto ao medo e quando pareceu estar prestes a gritar, Kennick a impediu no mesmo instante, tentando acalmá-la de alguma forma.
— Está tudo bem, Cilian. Não se preocupe. — Disse o rapaz segurando o lado do corpo, de onde pingava gotas de sangue misturada com água da chuva. Uma enorme mancha vermelha indicava onde estava o ferimento.
— O que houve, Senhor Kennick? — Perguntou a moça, insegura se devia se aproximar ou não do rapaz ferido à sua frente.
— Uma tentativa de assalto, longa história. — Fez um gesto com a mão como quem quer dispensar uma idéia que não podia ser explicada de imediato. — Lenil está? acho que preciso de uns pontos aqui.
— Meu senhor Lenil já está em seus aposentos. Ele disse que como tudo estaria calmo por conta da chuva, iria tentar dormir mais cedo. — A moça decidiu se aproximar do rapaz. — Mas eu posso cuidar disso se o senhor preferir. Só vou pegar algumas coisas para o curativo e... — Kennick nem sequer deixou-a terminar de falar e já dispensou a gentileza da moça.
— Não se incomode. Você está na recepção agora e eu não quero te colocar em problemas. O corte não é fundo, eu mesmo posso tratar dele. Na minha mochila tem várias coisas que eu posso usar — Em seguida, apontou para o paínel atrás do balcão. — Só preciso da chave do quarto, por favor.
Sem saber exatamente o que fazer ou falar, a moça concordou, acenando com a cabeça. Entregou a chave ao rapaz e com certa dificuldade, Kennick subiu os dois lances de escada, deixando pequenas manchas de sangue por onde passava.
Já dentro do quarto, quase não percebeu que a reforma também passou por ali. O quarto ainda era simples, com uma cama grande o bastante para duas pessoas, uma mesa com três cadeiras enconstada na parede oposta e um cabideiro junto à janela. O rapaz sorriu ao ver que pouca coisa mudara desde sua última estadia. Embora o quarto estivesse praticamente da mesma forma, as coisas eram novas.
Até mesmo a grande janela de madeira parecia ser outra. Estava fechada por conta da chuva e como ali era um lugar alto, dava até para ouvir lufadas de vento lá fora com borrifos de água gélida açoitando o vidro da janela fechada.
*
Vários minutos depois, kennick estava sentado em uma das cadeiras quando ouviu batidas na porta. Se sentiu um pouco irritado, pois tinha dito à Cilian que não precisava de ajuda. Porque a moça insistiria em deixar a recepção vazia para ir cuidar dele? Lenil poderia culpá-lo por isso e pior, podia repreender a pobre moça pela irresponsabilidade.
— Entre. — Kennick falava com a voz firme, como se já estivesse decidido a dispensá-la. — Escuta, eu agradeço a sua preocupação, mas...
A voz do rapaz morreu exatamente no mesmo instante em que seus olhos viram quem entrara em seu quarto. Aquele cabelo longo e negro, a pele branca, tão clara como era em sua memória e aqueles olhos castanhos vivos e dançantes eram simplesmente inconfundíveis. Era Lori.
Duarante muito tempo, Lori foi a pessoa que o rapaz mais tinha desejo em encontrar e que na mesma intensidade, temia esse encontro. A moça ficou estagnada na porta, surpresa por dois motivos. O primeiro, por ver Kennick novamente depois de tanto tempo. O segundo, por causa de seu estado deplorável. Levou a mão à boca ao ver tanto sangue manchando sua camisa e pingando no chão de madeira, formando uma poça de água vermelha.
Rapidamente, se recompôs e andou em direção ao rapaz. Deixou na cama uma bacia que trouxera contendo água morna e alguns panos limpos. Não sabia se tocava primeiro em seu rosto, pelo fato de vê-lo novamente depois de muito tempo, ou se tocava em seu ferimento, para ver a gravidade do corte.
— Todo esse sangue... você... — A voz da moça ia se perdendo a cada inicio de frase, pois não sabia exatamente o que dizer. — O que houve? Por que todo esse sangue?
— Não se preocupe, Lori. Isso tudo não é sangue. Quer dizer, boa parte é sangue. — Kennick tentou usar um tom mais zombeteiro, para espantar a tensão e o efeito da surpresa nos dois. — Mas a chuva tem sua parcela de culpa nisso aí. — Disse apontando para a poça vermelha no chão. — O sangue está diluindo, só isso.
— Mesmo assim. Precisamos tratar disso logo. E você está tremendo de frio. — Olhou ao redor com pressa e viu que o rapaz já tinha colocado sobre a cama algumas coisas que usaria para tratar o ferimento. — Rápido, vamos tirar sua camisa. — Nem o esperou concordar ou discordar e já foi puxando a peça de roupa que estava grudada ao corpo devido a água e o sangue. kennick teve que levantar os braços para que a moça pudesse puxá-la para cima. Gemeu de dor e se contorceu quando a ferida se abriu ao ser descolada do tecido. Lori se desculpou e colocou um pano limpo na ferida. — Pressione aqui. — Ordenou a moça.
Ao obedecer, kennick acabou colocando suas mãos sobre as dela. Seus olhares se encontraram, ficaram se encarando por um breve momento e nesse instante, lembranças e sentimentos antigos vieram à tona. Tempos que passaram juntos como amigos, ocasiões em que brigaram e momentos de sincera paixão. Tudo voltou num milésimo de segundo.
Lori desvencilhou-se da mão do rapaz e um pouco sem jeito, se virou para pegar outro pano limpo. Encharcou com água morna e começou a tratar o ferimento do rapaz. Aos primeiros contatos do tecido com o ferimento, o corpo de Kennick se afastava involutariamente, eram os espasmos causados pela dor do toque, mas vez por vez, seu corpo se acostumava, até que os espasmos pararam completamente.
— Cilian me disse que você estava ferido e eu subi às pressas, por isso não deu tempo de trazer nada anestésico, Me desculpe. — Lori baixou o olhar para o ferimento mais uma vez, tentando evitar contato visual com o rapaz, pois ainda se sentia constrangida.
Kennick levantou sua cabeça segurando suavemente seu queixo, fazendo com que o olhasse nos olhos outra vez.
— Não tem problema. — Disse Kennick segurando as mãos dela entre as suas. — É um ferimento superficial. E você tem mãos habilidosas. — Soltou-as logo em seguida, permitindo que a moça continuasse a tratar da ferida. — Lembra quando éramos crianças e estávamos discutindo sobre como dividir um roubo de frutas no mercado? — Kennick falava com falsa seriedade, encarando a moça. — E quando eu não queria dividir meio-a-meio, você me empurrou numa roseira sem nem pensar duas vezes, lembra? — A moça corou quase que instantâneamente e quando olhou para o rapaz outra vez, viu que seu olhar estava divertido, como se Kennick tivesse gostado de vê-la com vergonha. — Você ficou tão arrependida que tirou chorando todos os espinhos de mim.
— Você mereceu aquilo. — Disse ela com orgulho. — Onde já se viu, ficar com a maior parte sendo que trabalhamos juntos.
— Lori, eu fiz tudo sozinho. Tudo o que você fez foi ameaçar de contar ao Askelad se eu não dividisse com você. — Kennick exibia um sorriso perverso ao relembrar a cena. — E ainda me empurra numa roseira se eu não te der a metade? Você era uma criança horrenda, Lori. — A moça deu um soco no ombro do rapaz ao ouvir isso. Kennick gemeu de dor novamente enquanto ria e depois de um instante, continuou. — Mas depois, você cuidando dos meus ferimentos daquele jeito, chorando ao me ver todo furado e sangrando. — Mostrou a palma da mão esquerda à moça, onde havia uma cicatriz já escura de onde um espinho havia perfurado. — Eu percebi naquele momento que você era a pessoa que mais se importava comigo.
— Eu só me senti responsável pelo que fiz, só isso. — Disse a moça, ainda um pouco corada, mas contente por ver que a tensão entre os dois já sumira tão depressa. — E você me obrigou a fazer aquilo. Era só me dar logo a metade das coisas e pronto. — kennick riu mais uma vez ao ouvir essas palavras.
— Que bom que você não mudou, Lori. Eu senti a sua falta. — Disse com a voz branda.
— Eu também senti a sua. No começo fiquei irritada porque você sumiu. Mas hoje eu entendo que era melhor assim, por causa dos sentimentos de Askelad e de minha mãe. — kennick concordou com a cabeça. — Acho que já está limpo o suficiente, mas essa sutura vai doer um bocado e eu realmente queria te dar algo pra anestesiar isso.
— Não importa, o quanto antes acabar, melhor. — Disse Kennick indicando sua mochila. — No fundo daquele bolso você vai encontrar um estojo com um pouco de linha e uma agulha.
Lori pegou a agulha curva e se dirigiu ao criado mudo que ficava ao lado da cama. Uma vela estava acesa ali e com uma tesoura, segurou a agulha sobre a chama para esterelizá-la.
E enquanto Lori fazia os preparativos, Kennick deu continuidade a conversa:
— Eu não podia contar a verdade para ele naquele momento. Que nós... — Tentou falar, mas ficou sem jeito. — Que nós... nos encontrávamos. — kennick estava coçando a têmpora enquanto falava, constrangido com a situação.
— Como eu disse. Eu entendo isso agora. — Lori estava de costas para o rapaz, e por isso, Kennick não pôde ver que ela sorria ao perceber seu embaraço ao falar dos seus encontros. — Seria estranho para ele que tinha um relacionamento com a minha mãe, descobrir que nós também tínhamos um. Se os dois estivessem juntos ainda hoje, coisa que eu tenho certeza que sim, nós seríamos como irmãos. As coisas seriam muito estranhas para todo mundo.
— Concordo. Eu já não sou bem visto por ninguém, acho que não suportaria o fato de você ser discriminada também.
— Eu não ligo para o que as pessoas dizem, Kennick. Mas a minha preocupação era em relação aos nossos pais. Isso talvez seria um choque para eles e poderia acabar com a relação que tinham na época. — Lori agora se preparava pra começar a sutura. — Isso vai doer um pouco. — Disse ela ao rapaz, que assentiu indicando que podia começar a costurá-lo.
Kennick gemeu vez ou outra por conta da agulha entrando e saindo de seu corpo. Ao terminar, Lori espalhou uma pasta verde que ajudaria na cicatrização e amarrou bandagens em volta da cintura do rapaz, de modo que o curativo ficasse preso ali.
— Troque todos os dias. — Informou. — E evite fazer muito esforço para o ferimento não abrir novamente. Como você disse, é superficial, mas cuidado nunca é demais. — kennick sorriu para a moça novamente e, ela logo entendeu o porque daquele sorriso. — Se bem que, te conhecendo, dizer para você fazer uma coisa é o mesmo que implorar para fazer exatamente o contrário.
— Ora, não é pra tanto. — Kennick verificava se as faixas estavam bem firmes. E quando constatou que estavam, olhou para a moça mais uma vez e continuou dizendo: — Se você ficar aqui comigo, prometo que nem saio do quarto. — Kennick segurou novamente a mão da moça e a conduziu a se sentar na cama com ele. — Assim seria impossível eu fazer algo que não deveria, não é?
— Então acho que vou ter mesmo que ficar de olho em você. — Disse ela fingindo estar zangada. Kennick riu disso e se deitou. Lori seguiu o exemplo e deitou também, recostando sua cabeça no peito nu do rapaz.
*
Depois de um tempo em siêncio, apreciando a companhia um dou doutro, Lori tornou a falar:
— Fiquei feliz quando meu tio disse que você estava aqui. — Faaava ainda deitada sobre o rapaz. — Ele disse que suas buscas por Askelad não deram em nada e que você tinha ido à três flechas tentar entrar em contato com a punho vermelho. — Nesse momento, a moça levantou a cabeça para olhá-lo nos olhos. — Isso é verdade? Você conseguiu? — Quando Kennick não disse nada, ela continuou. — Claro que é verdade, olha só o estado que você voltou só de entrar em contato com eles. kennick, isso é muito perigoso, tem que existir outra alternativa.
— Não há mais alternativas, Lori. Eu já tentei de tudo. E isso não é nada demais. — Disse inclinando a cabeça na direção do ferimento enfaixado. — Uns ladrões acharam que eu tinha dinheiro e tentaram a sorte. Mas se eu estou aqui e até que bem, você pode imaginar o estado deles, não é? — Disse por fim com um riso sarcástico.
— Você não... — A moça relutou ao dizer o que lhe vinha à mente. — Você os matou?
— Não. Não foi necessário. — Disse kennick levando os braços para cima e os cruzando atrás da cabeça, apoiando-os por baixo dos chifres curvos. — Eu apaguei os dois e os escondi para que não ficassem desacordados no meio da rua.
— Está vendo Kennick? Você já se meteu em confusão por causa dessa guilda. Não se envolva com eles, estou te pedindo. — Enquanto falava, Lori se sentava na cama. Sua voz saía suplicante e Kennick pôde ver que seus olhos estavam marejados.
— Eu também gostaria que houvesse outro jeito, Lori. — Disse Kennick enquanto a puxava para perto novamente, envolvendo-a em seus braços. — Mas estou realmente desesperado. Não posso deixar que ele suma desse jeito e eu fique sem fazer tudo o que for possível para encontrá-lo. Eu não me perdoaria.
— Eu entendo, Kennick. E faria o mesmo se fosse você. — Disse a moça enquando baixava o rosto, limpando as lágrimas com as costas da mão. — Mas só de imaginar os perigos que você tem que enfrentar, eu já me desespero.
Fez-se uma pequena pausa e então o rapaz continuou:
— Eu preciso dele, Lori. — Enquanto a moça ainda estava de cabeça baixa, Kennick levou sua mão até o rosto agora manchado de lágrimas da moça e conduziu a boca dela até a sua. Depois de um beijo disse. — Preciso de você também.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Saudações rapazi. Como estamos hj?
Espero que bem.
Finalmente Kennick reencontrou alguém que não via há muito tempo.
O que acharam da Lori?
Será que as buscas do Lied vão permitir que os dois se reencontrem mais uma vez no futuro?
Não esqueçam de deixar um feedback sobre a história, ok?
Instagram: @Thiagoficcoes / @homemdataverna
Twitter: @Thiagoficcoes
Para quem quiser ler os capítulos no wattpad, procure por @Thiagoficcoes
Até a próxima semana, guys. Forte abraço e fiquem bem!!!
Comentários
Postar um comentário