Kennick está mais uma vez à caminho de Baum, uma cidade que fica ao extremo sul do país de Nolas, a poucos quilômetros de distância da fronteira com outra nação chamada Bortul. Já faz mais de duas horas que está na estrada que leva à cidade. Seu alívio nesse fim de tarde é que caía uma garoa fina, se não fosse por ela, agora ele estaria coberto de poeira que subiria da estrada de terra a cada passo de seu cavalo.
Seu objetivo na cidade é descobrir se a guarda conseguiu alguma informação sobre o paradeiro de seu mentor, um humano chamado Askelad. O homem está desaparecido há semanas e o rapaz o tem procurado todos os dias desde então. Começou as buscas pela região onde moram, que fica à oeste de Baum, numa clareira escondida por uma vasta floresta que circunda toda uma região entre os reinos Nolas e Bortul, como também em vilarejos que são margeados pela floresta. Porém, suas buscas não resultaram em nenhuma única informação até então.
Askelad e kennick viviam da caça e comércio de peles. Não era um negócio muito lucrativo, mas conseguiam viver sem depender de ninguém. Certo dia, como era de seu feitio, Askelad saiu sozinho para caçar nas fronteiras entre os dois países. Normalmente o homem não levaria mais do que dois ou três dias para voltar, mas ao se passar quase uma semana sem seu retorno, Kennick começou a procurá-lo. Até achou algumas pegadas e tentou seguí-las, mas a trilha foi confundida por dezenas de outras pegadas que iam e vinham em várias direções, pois aquela região era percorrida por vários tipos de pessoas, moradores das redondezas, caçadores, fugitivos, curiosos e tantos outros. Portanto, seria impossível achar algo que diferenciasse as pegadas de Askelad de todas as outras.
Foi além da fronteira e perguntou nas vilas se alguém viu um sujeito loiro de cabelo curto e cavanhaque bem feito, vestido com peles grossas. Não obtendo nenhuma resposta, continuou sua busca. Perguntou entre os mercadores com quem costumavam negociar, também sem sucesso algum. Decidiu então que seria melhor voltar à Nolas e levar o caso para as autoridades da cidade de Baum, por ser a mais próxima de onde moram. Feito isso, continuou suas buscas por conta própria.
Estava agora chegando a quarta semana do desaparecimento de Askelad. Constantemente Kennick ia até Baum verificar se a equipe de busca obteve alguma informação enquanto ele mesmo o procurava em outros lugares. Todo esse tempo e nem sequer uma única pista foi obtida, nem pela equipe de busca, nem por ele. Nenhum rastro, marcas de briga, nada de sequer boatos de confusão ou desentendimento e, o pior, ninguém viu alguém ao menos parecido com Askelad ultimamente.
O rapaz lamentava ter que ir novamente à Baum, pois odiava a cidade. Os guardas e a população o tratavam como um inimigo público e toda vez que ia ao quartel general da cidade, a fim de perguntar sobre as buscas por Askelad, as respostas eram curtas e grosseiras. Tinha quase certeza que dessa vez não seria diferente das tantas outras vezes, mas sabia que devia tentar.
Kennick sabia que esse tratamento que recebia da cidade era pelo simples fato de que ele é um Lied. Houve uma época em que uma colônia de Lieds habitava uma das cidades em Nolas. Esses Lieds, dizem, planejavam um golpe de estado, com o intuito de causar uma guerra cívil e tomar o controle de todo o país.
O antigo rei, Borg, que era conhecido por sua crueldade para com os inimigos, soube dessa suposta traição dos Lieds, os quais ele aceitou de bom grado no seu país tantos anos antes. Ordenou então que todos daquela raça fossem aniquilados, sem exceção.
Askelad, que na época fazia parte do exército de Nolas, era muito amigo dos pais de Kennick, ficou sabendo o inevitável destino que caíria sobre os Lieds e não havia tempo de avisar a todos para se prepararem para lutar ou fugir, pois se fosse pego, seria acusado de traição e não conseguiria salvar nem mesmo seus amigos.
kennick sabia que Askelad não gostava de falar sobre aquele dia, pois dizia que as lembranças eram dolorosas demais, mas o homem lhe contou que correu até a casa dos pais de Kennick e os avisou que parte do exército de Nolas estava à caminho, disse que eles precisavam ir embora. Implorou para que não tentassem lutar, que pegassem seu filho e partissem dali o mais rápido possível. Nesse momento porém, gritos começaram a ser ouvidos em vários lugares e na mesma hora, batidas bruscas na porta anunciavam que os guardas já estavam ali. Antyr e Hage, mãe e pai de Kennick, pediram para Askelad fugir com seu filho enquanto eles lutavam a fim de conseguir um pouco de tempo para ele. Relutante, Askelad obedeceu, pois sabia qua as habilidades de luta de cada um deles já superava em muito as suas, os dois juntos então eram uma força equivalente à vários homens.
Foi um verdadeiro massacre, homens, mulheres, crianças e idosos. Todos mortos sem compaixão. Não foi oferecido o exílio, nem escravidão foi imposta, como é o caso de alguns países, houve somente a aniquilação. Essa noite ficou conhecida como "A noite das facas sangrentas" e, como eram afiadas essas facas.
Era possível ouvir ao longe os gritos de pessoas morrendo, implorando pela vida, tentando lutar pela sobrevivência, tudo em vão. Pois os guardas estavam em maior número, apoiados pela população e ordenados pelo próprio Rei. Não havia o que pudesse ser feito para impedir o massacre. Pelo que se soube, apenas um Lied sobreviveu na noite das facas sangrentas, Kennick é esse Lied. Tinha apenas quatro anos de idade na época e não ficou praticamente nenhuma lembrança sobre aquele fatídico dia.
E assim, kennick passou a ser criado por Askelad, amigo de seus pais e seu mentor. Agora, muitos anos após a noite das facas sangrentas, este homem estava desaparecido e Kennick não descansaria enquanto não o encontrasse.
Por isso estava indo novamente à Baum, mesmo com as chances sendo mínimas, sabia que devia tentar. Sabia que se houvesse uma única chance de encontrar seu mentor, mesmo que distinta, agarraria essa chance com unhas e dentes. Enfrentaria quem quer que fosse e suportaria com um sorriso no rosto qualquer discriminação ou preconceito contra ele, pois devia a própria vida à Askelad.
*
Kennick pensava em tudo isso enquanto se dirigia ao portão da cidade. Durante seus devaneios, nem notava mais que as pessoas que passavam por ele desviavam de sua direção para o outro lado da estrada, pois não queriam cruzar seu caminho com o de um Lied. Não que ele se importasse com isso, já estava acostumado e até preferia que assim fosse, pois estava cansado daquela gente o olhando de um jeito acusador.
Não havia a boa e velha educação de se cumprimentar um viajante nas estradas. Não houve um boa tarde ou uma breve troca de informações sobre de onde vem, para onde vão e como estão as coisas nesses lugares, nem mesmo um manear de cabeça em cumprimento. Apenas o mesmo preconceito misturado com medo e cautela que as pessoas geralmente tem em relação aos Lieds.
Sabia que era o efeito da noite das facas sangrentas e não sua aparência que causava aquela repulsa nas pessoas. Por mais que kennick fosse o único Lied nessas terras, sua aparência já não era mais novidade há muito tempo. Como todo Lied, kennick tinha chifres, os seus saíam do alto de sua testa e seguiam o formato da cabeça, indo para trás e chegando até a nuca, ali as pontas faziam uma leve curva para cima novamente. Seus cabelos negros e emaranhados escorriam até um pouco abaixo dos ombros e, seus olhos, tão negros quanto seus cabelos, eram estreitos, dando a impressão que o rapaz estava sempre à espreita do que acontecia ao seu redor, o que estava certo. Por mais que nesse momento seus devaneios o fizessem nem se incomodar com a vísivel falta de educação das pessoas para com ele, sua audição estava aguçada e por ela o rapaz percebia o que estava acontecendo ao seu redor em um grande raio de alcance.
Os Lieds possuem habilidades úteis e únicas de sua raça, sua visão e audição são mais apuradas. Conseguem enxergar até três vezes mais longe que qualquer pessoa de qualquer outra raça. Se estiverem num lugar elevado, sua visão se estende a quilômetros à frente e assim, antecipam suas ações para o que quer que esteja vindo em sua direção.
Sua audição também lhe dá uma vantagem sobre as outras raças, ao se concentrarem o suficiente, conseguem ouvir até um sussurro como uma conversa normal. Essa habilidade só não ajuda muito se estiverem no meio de uma multidão onde várias e várias vozes se confundem e se misturam em gritarias. Tavernas cheias e mercados não são bons lugares para usarem essa habilidade.
Sua pele completamente avermelhada se distinguia muito naquele país, onde os humanos tinham sua cor parda ou negra. Até mesmo os Uraiks, Doslus e Artons que também tem suas peculiaridades não tinham uma pele tão chamativa como a de Kennick e os demais Lieds.
Como foi dito, não era sua aparência que causava aquele tipo de tratamento vindo das outras pessoas, mas sim o efeito da noite das facas sangrentas. Os moradores do país passaram a pensar que para tantos Lieds morrerem tão brutalmente, algo de muito terrível eles haviam feito, pois o Rei Borg, por mais cruel que fosse com os inimigos, só fazia seus julgamentos quando tinha certeza de que algum crime foi cometido. Desde então passou-se a ter uma certa apreensão em relação aos Lieds em toda Nolas.
*
Poucos minutos depois, chegou enfim ao portão sul da cidade. Teve que esperar e acompanhar uma fila de outras dezenas de pessoas que também
aguardavam para poder entrar, mas que antes deviam passar pela revista rigorosa da tão detestável guarda de Baum.
Quando estava quase na sua vez de passar pela revista, seus olhos se encontraram com os do guarda mais próximo, que vasculhava rapidamente as pessoas, com o intuito de ver se alguém tentava esconder algo. Viu que ao notá-lo, o homem falou algo para seu colega de farda que o ajudava na tarefa de olhar bagagens e mercadorias. Ambos passaram a rir do que kennick achou ser uma piada sobre ele, o que não seria novidade nenhuma. Olhou também para cima do portão, onde nas ameias fortificadas, mais guardas mantinham seus postos, armados com bestas. Cinco ficavam virados para o lado de fora da cidade e outros cinco virados para o lado de dentro. Pareciam estar mais mal humorados do que de costume, devia ser pelo fato de estarem sob aquela garoa fria do fim de tarde e que ainda teriam que ficar por muitas horas em seus postos.
Esse pensamento fez kennick sorrir de satisfação.
— Essa corja merece isso e muito mais. — Falou kennick em voz baixa, consigo mesmo.
Chegando na sua vez, um dos guardas pediu para que ele descesse de seu cavalo e o acompanhasse até um lugar mais afastado da entrada, para que fosse revistado. Enquanto isso, seu companheiro revistaria a sela do animal e as bagagens do rapaz.
— Quais são seus negócios na cidade? — Perguntou o guarda começando a revista.
— Preciso falar com o capitão Balquir. — Respondeu Kennick, quase demonstrando seu tédio. Observava o uniforme surrado do homem. As cores verde e preta do uniforme padrão da guarda estavam já há muito desbotadas nos trajes desse sujeito. Kennick pensou que além deles não trabalharem direito, sua conduta e disciplina também eram questionáveis. Se perguntou o que o imprestável do Balquir achava do desleixo de seus homens.
— Falar sobre o que? — Perguntou o guarda enquanto estendia os braços de Kennick para que ficassem abertos em forma de cruz. Inspecionou suas mangas, extensão do braço e axilas. Em seguida, separou também suas pernas para revistar na região da virilha.
Kennick não entendia qual a necessidade de tudo aquilo, o que eles esperavam encontrar, afinal?
— Quero perguntar à ele se obtiveram alguma pista sobre o desaparecimento do meu mentor. — Respondeu Kennick.
— Ah, isso. — O guarda quase riu ao ouvir Kennick dizer essas palavras. — Bem, eu posso te adiantar de que não soubemos ainda nada a respeito sobre esse... — Fez um gesto com a mão como se quisesse procurar as palavras certas para o que queria dizer. — Sumiço, digamos assim? — A pergunta foi direcionada não à Kennick, mas ao seu companheiro que já havia terminado de inspecionar a sela do cavalo e, agora observava com interesse o trabalho de seu amigo. Ao ouvir a pergunta, tudo o que este segundo guarda fez foi dar de ombros e ambos começaram a rir novamente. O primeiro guarda, que revistava Kennick, terminou o seu serviço e dispensou o rapaz. — Está limpo, você pode ir embora se quiser, já que acabei de lhe dar a informação que você queria.
— Prefiro falar com o capitão eu mesmo. — Pegou as rédeas das mãos do segundo guarda e sem esperar que fizessem mais alguma piadinha sobre ele, entrou na cidade. Pôde ouvir os cochichos de mais quatro guardas que ficavam postados armados junto ao portão, dois em cada lado das enormes portas de madeira e ferro que se abriam para dentro. Sabia que estava sendo observado por todos eles, pois conseguia ouvir palavras soltas de insultos, provavelmente era dele que falavam, então, subitamente lançou um olhar carrancudo na direção dos guardas juntos à porta, o que os fez dar um passo para trás devido a surpresa da ação de Kennick, pois era como se ele tivesse escutado o que diziam. Viu também que estava sendo acompanhado pelo olhar dos guardas nas ameias.
Definitivamente o rapaz não era bem vindo ali e, se tivesse como escolher, escolheria nunca ter que botar os pés naquele lugar outra vez.
*
Montou em seu cavalo novamente e se dirigiu ao quartel general da guarda de Baum. O caminho não era longo, mas se não fosse a cavalo, poderia levar um certo tempo para chegar e talvez o capitão não o recebesse, com a desculpa de que o horário já era avançado e não atenderia mais ninguém naquele dia, a não ser que fosse uma emergência.
Em contra partida, não podia instigar seu cavalo a correr, pois havia o risco de atropelar alguém, o que seria motivo mais que suficiente para causar sérios problemas à ele naquela cidade. O jeito então seria seguir uma marcha ritmada mas sempre tomando cuidado com quem se aproximasse demais.
Enquanto passava pela cidade, viu nas pessoas a mesma reação que sua presença causou em quem passava por ele na estrada. Uma certa cautela e até alguns olhares temerosos. O que era até bom, pois a maioria das pessoas saíam logo do seu caminho e assim, poderia chegar mais rápido ao quartel.
As ruas de Baum eram apinhadas de gente mesmo quando anoitecia, ruas onde tinham tavernas e pousadas eram os lugares onde o fluxo de movimento era ainda maior. Embora Nolas seja um país cuja população em sua maioria é de humanos, não raramente outras raças podiam ser vistas aqui e ali, principalmente nessas pousadas e tavernas.
Enquanto se dirigia ao quartel, Kennick pôde ver alguns anões adentrando uma taverna para começar sua costumeira noite com muita cerveja, um ou outro Doslu andando aqui e ali com sua habitual pressa, um grupo composto por um Uraik, um Arton e alguns humanos passou por ele e ficaram encarando-o por um momento, Kennick pensou que deviam ser mais um grupo de aventureiros que acabara de chegar e que provavelmente sabiam que os Lieds não habitam mais em Nolas, por isso a expressão de surpresa era ainda maior no rosto dessas pessoas do que nos próprios moradores da cidade, que de certa maneira já estavam mais acostumados com a presença do jovem Lied por ali, o que não significa que o aceitavam.
Kennick desejou que seu quarto de costume na pousada "O pastor perdido" estivesse disponível para ele quando saísse do quartel mais tarde naquela noite. Essa pousada que ele costumava ficar se encontrava quase no extremo norte da cidade e, já que ele se dirigia ao quartel, que ficava quase no centro, um pouco à leste, não demoraria muito a chegar na pousada quando pegasse uma das ruas principais.
As ruas principais eram quatro, saíam de uma praça no centro da cidade e cada uma ia para um ponto cardeal. Eram largas e se estendiam por vários quilômetros. Dessas quatro ruas saíam todas as outras que se interligavam por toda cidade.
O amontoado de casas e estabelecimentos também formavam outras ruas secundárias menores, vielas e alguns becos sem saída. Sempre que o rapaz passava por essa cidade, tinha a impressão que as casas foram sendo construídas sem qualquer planejamento. Parecia que conforme os moradores iam chegando ao longo dos anos, foram construindo suas casas sem se importar muito com a arquitetura do local.
Kennick pensava isso porque as casas tinham formatos e padrões irregulares. A única coisa que era semelhante nelas eram suas estruturas em madeira. Já as paredes e tetos variavam de uma casa pra outra. Os que tinham melhores condições faziam suas paredes de pedra trabalhada e o teto era de tijolo de barro. Os que não tinham tantas condições assim faziam suas paredes e teto também de madeira, bem como eram suas estruturas. Outros ainda, tinham suas paredes feitas com palha e barro.
De fato Baum era uma cidade curiosa, parecia que o desleixo e descuido já fazia parte deles desde gerações passadas. Ao menos algumas ruas eram pavimentadas, o que facilitava o trajeto para cavalos e carroças.
Chegou então ao quartel general em não mais de quinze minutos. O Prédio era cercado por altos muros e com apenas um portão duplo, que ficava completamente aberto durante o dia. Kennick passou por esses portões,desceu de seu cavalo e amarrou as rédeas numa comprida porém baixa estrutura de madeira que ficava ao lado da porta de entrada do prédio, lugar esse que era próprio para os guardas deixarem seus cavalos, mas sabia que não haveria problema algum em deixar o seu ali por alguns minutos.
*
O prédio era uma das maiores construções de toda cidade. Com dois andares contando com o térreo e mais um no subsolo, que era destinado às celas. Ali eram confinados os criminosos enquanto aguardavam sua sentença, a qual poderia variar muito dependendo do crime cometido e da condição do prisioneiro.
O primeiro andar, o térreo, é onde os moradores ou viajantes eram recebidos pelos guardas responsáveis em fazer as ocorrências de quem fosse relatar algum crime. Haviam algumas mesas espalhadas e cadeiras em ambos os lados das mesas, uma para o oficial em serviço e duas do outro lado para quem fosse relatar algum caso.
Quando Kennick adentrou o prédio, quase todas as pessoas que estavam lá pararam imediatamente o que estavam fazendo para ver quem entrara ali tão tarde. Ao perceber que era o Lied que vez ou outra aparecia na cidade, alguns cutucaram os que ainda não tinham olhado para a porta e nesse momento sim, todos voltavam sua atenção para Kennick. Entrou sem se importar com os olhares voltados para ele e se dirigiu à mesa da oficial mais próxima.
— Estou aqui para ver Balquir. — Anunciou ele sem rodeios.
— Capitão Balquir. — Corrigiu a oficial em tom ríspido, claramente irritada pela forma como o Lied se dirigiu à ela sem o menor senso de respeito. — Você tem hora marcada? — Perguntou a mulher. Kennick notou que a moça vestia as mesmas cores verde e preta que os guardas do portão, e sua roupa também estava velha e desbotada. O rapaz se perguntou se não estava vindo verba para esses guardas. Ou será que a verba que chegava era desviada? Seja qual fosse o motivo, Balquir era de fato um péssimo líder para aquela corporação, Pensou Kennick.
— Não, mas ele sabe do que se trata. — Respondeu dando de ombros.
— Você vai ter que aguardar na antessala então, até que tenha permissão para falar com o capitão. — Enquanto falava, a oficial indicava com o polegar as escadas aos fundos e, imediatamente voltou sua atenção para os papéis em sua mesa.
*
Subiu as escadas e se deparou com dois guardas que estavam postados do lado de fora, junto à porta da antessala. A porta estava completamente aberta para que o secretário pudesse ver quem se aproximava. Kennick aguardou por um momento no lado de fora até que o sujeito atrás daquela enorme e pesada mesa de carvalho o notasse.
Levou uns bons segundos para que o sujeito percebesse que havia alguém ali esperando a permissão para entrar e, quando isso enfim ocorreu, o homem acenou com a cabeça dando autorização para Kennick se aproximar. Ali, onde o homem tinha sua mesa, havia pilhas de papéis. Dava para notar que havia uma certa organização, pois Kennick viu que o homem pegou uma folha que estava numa pilha à sua direita, analisou-a, rabiscou alguma coisa e colocou a folha numa outra pilha que estava do seu lado esquerdo, fez esse processo mais duas vezes antes de dar atenção ao recém chegado.
O secretário era um sujeito com ar de importância e autoridade. Talvez seja pelo fato de já estar na casa dos cinquenta anos e ter o cabelo quase que
completamente grisalho, mas muito bem aparado e uma barba rala bem ajeitada. Suas roupas, limpas e impecáveis, também exibiam as cores preta e verde da corporação da qual fazia parte. Era nítida a confiança que o sujeito inspirava e quem olhasse para ele, logo entenderia porque o capitão o queria como seu braço direito, pois dali ele organizava a agenda de seu superior, decidindo quem entraria em sua sala particular e quando.
Todas as vezes que precisava estar na cidade com o intuito de falar com o capitão Balquir a respeito das buscas por Askelad, kennick sempre ficava surpreso ao ver que o secretário era limpo e organizado, ao contrário de tantos guardas que vira só naquele dia. Pensou no homem como aquele típico sujeito que não conseguiu o cargo que queria como maior autoridade militar e teve que se contentar como subalterno de quem conseguiu. O sujeito não era tão importante assim, mas mantinha um altivo olhar sobre as outras pesoas.
— Está aqui para ver o senhor Balquir novamente? — Indagou o homem antes que Kennick pudesse dizer qualquer coisa.
— Isso mesmo. — Respondeu Kennick, notando que o homem lhe falara com indiferença, mas o rapaz aprendeu a não ser o tipo de pessoa que se ofendia por pouca coisa.
— Você já será chamado. — O homem indicava com a mão o local onde ficavam alguns bancos encostados numa parede, para que os queixosos não esperassem de pé.
Kennick nem teve tempo de dar uma resposta e o homem já estava pegando mais uma folha da pilha à direita, em seguida, rabiscava o que provavelmente seriam registros de ocorrências recentes e ordens a serem analisadas e colocava a folha sobre a pilha à esquerda. Apenas a rotina chata de um secretário, pensou.
*
Não demorou mais do que vinte minutos para que saísse um sujeito da sala do capitão e uma voz anunciasse que poderia entrar o próximo. Kennick olhou mais uma vez para o secretário e este acenou com a cabeça, dizendo que o rapaz tinha a permissão para entrar.
A primeira coisa que Kennick notou ao pisar dentro da sala, foi o mau cheiro que provinha da lareira da parede direita da sala. Havia uma enorme quantidade de cinzas nela, que parecia não ser limpa há um bom tempo. Havia também quase o triplo de pilhas de papéis na mesa do capitão e uma boa quantidade empilhada também no chão.
A sala era bem grande, no entanto não havia nada demais em seu interior, a não ser a mesa do capitão, com uma cadeira para ele e duas do outro lado da mesa para quem o visitasse, havia também uma estante empoeirada repleta de livros velhos e a enorme lareira suja. O cheiro só não era pior porque atrás da mesa do capitão, ficava uma janela dupla que abria para o lado de dentro, que na ocasião só uma das partes estava um pouco entreaberta, por causa do vento que soprava lá fora e colocava em risco todas aquelas pilhas de papéis de serem sopradas e deixar tudo num caos pior do que a sala já estava.
— Em que posso ajudar? — Balquir, o capitão da guarda de Baum nem se deu o trabalho de levantar a cabeça para ver quem havia entrado em sua sala.
— Eu duvido muito que possa, mas vim mesmo assim. — kennick estava de
pé atrás de uma das duas cadeiras do outro lado da mesa. Suas mãos estavam cruzadas às costas, como se fosse um guarda que foi se reportar ao seu capitão. A cabeça erguida e os olhos fixos no homem davam ao rapaz um ar desafiador. Balquir, ao ouvir a voz de Kennick soltou a pena com a qual estava rabiscando em um papel e deu um suspiro profundo.
— Você outra vez aqui, rapaz? Eu acho que já lhe disse que assim que tivermos alguma informação sobre o paradeiro desse homem que você tanto procura, um dos guardas vai até a sua casa te dar a notícia em primeira mão.
— O homem quase não se mexeu, apenas ergueu a cabeça e falou quase da mesma posição que já estava.
— Acontece que eu nunca vejo vocês fazendo nada a respeito. — Kennick falava com dureza, mas tomando o cuidado de manter a calma ao falar. — Já faz semanas que Askelad sumiu e vocês nem se dão ao trabalho de montar uma equipe de busca e ir atrás dele. Mesmo ele já tendo servido como um de vocês há tempos atrás. Me pergunto se essa é a importância e consideração que vocês tem para com seus antigos irmãos de farda. — O tom sarcástico foi mais que o suficiente para irritar o capitão.
— Olha o jeito como fala comigo, garoto. — Balquir se levantou bruscamente da cadeira, deu a volta em sua mesa e parou frente a frente com Kennick. O homem era consideravelmente mais alto que o rapaz e por isso, teve que olhar ligeiramente para baixo se quisesse encará-lo nos olhos. — Você acha que eu não sei fazer o meu trabalho? acha que pode sair daquele mato que você chama de casa e vir aqui me dizer como fazer as coisas? Eu devia te jogar na prisão por falar comigo desse jeito.
Agora que o homem tinha se levantado, Kennick pôde notar o estado quase deplorável do sujeito gordo a sua frente. Suas roupas estavam tão mal cuidadas quanto sua aparência, seu uniforme preto e verde estava amarrotado, seu cabelo preto enrolado estava desgrenhado e sua barba grisalha em alguns pontos, estava por fazer. Exalava um cheiro azedo também, como se não chegasse perto de um banho há dias. E ao falar, o cheiro forte de álcool quase fez kennick virar o rosto num impulso de não inalar aquele odor.
Kennick manteve seu olhar fixo nos olhos castanhos do homem, não demonstrou fraqueza em nenhum momento, não recuou nem um passo e
muito menos desviou o olhar ou baixou a cabeça. Era um rapaz orgulhoso, talvez algumas pessoas achem que isso se deva ao fato de que ele era um
Lied, mas não era por isso. kennick sabia que jamais obteria qualquer ajuda se achassem que era um coitado. Coisa que não era nem de longe. Sabia se cuidar, até se meteu em uma confusão ou outra quando procurou por Askelad por conta própria e lhe deram informações erradas. E o que aconteceu com essas pessoas não foi algo muito bonito de se ver.
— Longe de mim querer ensiná-lo como deve fazer alguma coisa, senhor. — Essa última palavra foi dita com todo sarcasmo que o rapaz ousou juntar. — Mas o que eu estou dizendo é que eu não vejo coisa nenhuma ser feita.
— Talvez você deva parar de olhar na direção errada então, garoto. — A resposta foi dada no mesmo segundo em que Kennick terminou de falar. — Agora se você me der licença, tenho muitos relatórios a preencher.
Kennick ainda estava encarando o homem diretamente nos olhos enquanto este ainda falava e reparou que seus olhos estavam estreitados, mas não por estar com raiva. E nos cantos dos olhos haviam rugas bem visíveis, o que sugeria que o homem estivesse exausto, talvez aquela vida de capitão o estivesse esgotando, talvez ele estava mesmo tentando encontrar Askelad ou só estava cansado de preencher tantos e tantos papéis. Mas o que realmente chamou a atenção do rapaz foi a frase "parar de olhar na direção errada". Imediatamente a mente do rapaz tentou buscar o significado daquilo. O que Balquir quis dizer exatamente? O que significava isso? Será que ele disse por dizer? Deixou escapar alguma coisa sem querer? Ou estava tentando avisá-lo de algo?
Seus pensamentos foram interrompidos tão logo quanto começaram. Balquir chamou um dos guardas que estava postado do lado de fora.
— Acompanhe este jovem até a saída. Creio que ele tem uma longa viagem de volta para casa e o quanto antes for, melhor será para ele. — Essa última frase deu a impressão ao rapaz de ser uma ameçada velada. Agora se voltando para Kennick novamente, Balquir acrescentou. — Eu realmente lamento muito pelo que você esteja passando, garoto. Não deve ser fácil lidar com o desaparecimento de alguém mas acredite, nós estamos fazendo o que podemos. Pode ir agora.
Kennick deu uma bufada de desdém e saiu da sala com não mais do que apenas raiva transparecendo em seu rosto. Dispensou a escolta do guarda dizendo que sabia por onde sair dali.
De volta à antessala, o secretário lhe ofereceu um sorriso quase que solidário, como quem pede desculpas pelas atitudes rudes de outra pessoa. Desceu as escadas às pressas e já no andar de baixo, as demais pessoas o encaravam mais uma vez enquanto passava, alguns até riam e faziam comentários sarcásticos pelas costas do rapaz.
Desamarrou as rédeas de seu cavalo da estrutura de madeira e ainda com raiva, saiu andando pela cidade. Já que definitivamente não poderia contar com a guarda para ajudá-lo a obter pistas sobre Askelad, deveria achar outros meios que pudessem fazer isso, mas quais meios ainda eram uma incógnita ao rapaz. Seguiu seu caminho então até a pousada enquanto tentava pensar em algum plano.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Fala rapazi.
Esse é o primeiro capítulo de Inevitável. Espero que tenham gostado e que dêem um feedback sobre ele. Ok?
Podem deixar suas considerações aqui nos comentários ou nas redes sociais.
Instagram: @homemdataverna / @Thiagoficcoes
Twitter: @Thiagoficcoes
Comentários
Postar um comentário