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Inevitável - Capítulo 03




O trajeto da pousada até a taverna seria relativamente longo, mas Kennick andava depressa por causa da ameaça da chuva e assim, chegaria em pouco tempo. Estava já chegando à ponte norte que atravessava um dos braços do rio Varte. Esse braço do rio que percorre a cidade foi feito manualmente pelos antigos moradores da região que chegaram há centenas de anos antes. O rio Varte passa por dentro da floresta e o braço foi cavado porque os moradores não queriam desmatar toda floresta para construir sua cidade. Assim, acharam melhor construí-la ao lado da vasta floresta. Cavaram então esse braço que vem do norte, quando o rio está quase adentrando a floresta e vai até o sul, se ligando novamente com o rio pelo outro lado. Desse jeito poderiam usufruir tanto do rio, quanto do que a floresta tinha para oferecer.

Enquanto andava depressa, Kennick percebeu que o movimento de pessoas nas ruas ia diminuindo, provavelmente por conta da ameaça da chuva que pairava no escuro céu baixo de Baum. Passou então pela ponte e de lá seguiu uma das ruas que saía dela, fazendo uma curva para o sul novamente. A taverna já estaria à poucas quadras dali.

Mesmo sendo uma noite particularmente fria e molhada, vez ou outra alguém passava por ele na rua e como já era de se esperar, essas poucas pessoas que ainda estavam andando por aí, desviavam de seu caminho. Algumas delas apenas abaixavam o tom de voz ao vê-lo passar e outros ainda, paravam de falar completamente. Para o rapaz, ficava óbvio o que todas essas pessoas estavam pensando. Que nenhum Lied era bem vindo ali.

Kennick sempre achou que a qualquer momento, essas pessoas poderiam pegar uma pedra e arremessar contra ele e, os demais simplesmente seguiriam o exemplo.

Até mesmo os guardas que faziam suas rondas o olhavam de esguelha. Só o deixavam em paz pois já estavam acostumados com sua presença ali. Mas se fosse um Lied que a população de Baum nunca tivesse visto antes, com certeza o rapaz seria parado e perguntas seriam feitas. De fato a reputação de sua raça era péssima naquela cidade, mas o que se poderia fazer? Não foi ele quem planejou um ataque ao país anos atrás, Kennick não tinha nada a ver com aquilo. Não guardava remorso de ninguém por causa do ocorrido para com os seus e mesmo assim as pessoas o evitavam como se fosse um leproso.

A garoa fina agora se engrossava numa chuva forte, kennick já estava chegando à taverna e acelerou ainda mais o passo. Cerca de pouco mais de

vinte minutos depois de deixar a pousada de Lenil, finalmente chegara à "três flechas".

Ainda na rua, o rapaz vê que do lado de fora da taverna há três homens conversando e rindo alto, pareciam não se incomodar com a chuva que os açoitava. Ao se aproximar mais, estranhou que nenhum dos três pareceu se importar com sua presença. Das duas uma, ou não estavam mesmo nem aí para quem ele era, ou estavam muito bêbados para notar alguma coisa, a chuva ou o Lied. Seja lá qual fosse o motivo, não importava.

— Tenha uma boa noite, amigo. — Cumprimentou um deles. — A noite está ótima para um trago. — O homem levantou sua enorme caneca de cerveja em cumprimento, ao mesmo tempo em que dava um passo para o lado com o intuito de deixar espaço para que Kennick entrasse na taverna.

kennick achou estranho a princípio, mas não permitiu que essa novidade ocultasse sua educação. Devolveu então a saudação amistosa dos homens e pediu licença para entrar na taverna.

*

Passou pela porta dupla da entrada, limpou os pés na soleira e se dirigiu ao balcão, onde uma mulher servia as bebidas. Observava o salão enquanto andava, era um lugar enorme a "três flechas", com várias mesas espalhadas por todo lugar e apinhada de gente que conversava gritando, por conta do enorme barulho que se espalhava por todo o ambiente. Haviam pessoas de várias raças juntas naquela taverna. A maioria humanos, mas também uma boa quantidade de uraiks, anões e até alguns Doslus espalhados aqui e ali.

Rapazes e moças com aventais corriam sem parar de um lado à outro servindo as mesas e anotando pedidos. Algumas pessoas paravam de conversar ao notar que um Lied estava passando entre as mesas, outros não se importavam tanto e só à guisa de curiosidade, apenas davam uma olhadela e já voltavam sua atenção para suas fofocas e mentiras corriqueiras.

O que também fazia com que a atenção das pessoas não se voltasse de prontidão para Kennick, era a apresentação de dois homens num pequeno palco aos fundos do salão. Enquanto um deles tocava seu violino num ritmo rápido e constante, o outro cantava sobre uma heroína que derrotada centenas de inimigos em uma única batalha e, enquanto cantava, dançava, de modo a interpretar os movimentos da protagonista dessa estória. Kennick sabia que as músicas eram enfeitadas para contar as histórias de forma mais gloriosa do que realmente foram, mas ficou encantado em saber que uma garota poderia fazer tudo aquilo que eles cantavam.

As pessoas se empolgavam com o ritmo acelerado da música, uns batiam palmas, outros batiam suas canecas no tampo das mesas em que estavam e outros batiam os pés no chão de madeira da taverna, dando um complemento de som de percussão à musica, O ritmo ia se intensificando à medida que menos e menos inimigos sobravam na frente da heroína, até que por fim restou apenas um e esse, sabendo que não havia como vencer, fugiu de medo.

A apresentação terminava dizendo que se não fosse por esse único fugitivo, talvez hoje essa música não seria cantada. E assim a canção terminou, foi dado então o último lento e grave arranhar na corda do violino. O dançarino caiu no chão como que morto, representando o estado em que a heroína ficara após a luta. As pessoas vibravam de empolgação, se levantavam de seus lugares batendo palmas, gritando e abraçando seus companheiros, como se acabassem de presenciar aquela incrível batalha.

*

A taverna era um gigantesco salão quadrado. À direita ficava a cozinha e em cada parede lateral, havia uma porta para facilitar o acesso de quem servisse as mesas. Uma outra porta estava na frente da cozinha, onde um pequeno corredor era ligado ao balcão de atendimento que ficava quase no centro do salão. Esse balcão era todo redondo e em toda sua volta externa, haviam bancos para aqueles que preferissem beber por ali mesmo, sem se misturar com a bagunça que predominava todo o ambiente por conta das músicas e dos gritos de empolgação.

Antes mesmo que chegasse ao balcão, os olhos de Kennick foram atraídos para a mulher que atendia ali e servia as bebidas, era uma Elfa de uma beleza única. Seus cabelos, que na ocasião estavam presos num rabo de cavalo que ia até o meio das costas, eram brancos, quase prateados, mas não por causa da idade, - Pois dava para notar de longe que a mulher estava apenas na casa dos trinta. - mas sim por ser da antiga linhagem dos primeiros Elfos. Sua pele era clara e sem uma única marca ou cicatriz visíveis, apenas um leve bronzeamento, o que sugeria que a moça passava horas na rua durante o dia, provavelmente resolvendo assuntos da taverna. E seus olhos, que já estavam sobre Kennick antes mesmo que o rapaz a percebesse, eram de um azul frio, claro como um dia sem nuvens e atraentes como a mais bela pedra preciosa.

Kennick chegou ao balcão sem dizer nada, de tão enfeitiçado que estava. Uma beleza como a dela era raro num lugar daqueles. Pensou que ela fosse mais bonita até mesmo que a própria Lori.

— O que vai ser? — Perguntou a Elfa sem rodeios. Não se incomodou por quem ele era. Parecia ser do tipo de mulher muito segura de si. Essa confiança e autoridade que a elfa exalava, normalmente não eram vistos nas mulheres daquela cidade e isso agradou o jovem Lied.

— Uma cerveja preta, por favor. — Dizia kennick enquanto tirava cinco moedas de prata de seu bolso, do lado direito de sua jaqueta. Já tinha deixado aquelas moedas ali para não ter que ficar mostrando a sua bolsa de dinheiro que guardava junto ao peito. As pessoas mais próximas se espantaram por ver que um rapaz que devia ter os seus vinte anos de idade, iria gastar tanto em cerveja sozinho. Alguns disfarçaram o olhar quando viram aquelas moedas sobre o balcão. Geralmente, as pessoas trabalham um dia inteiro para ganhar entre seis a oito moedas de prata. E ali, naquela taverna, um jovem Lied estava gastando quase um dia inteiro de trabalho apenas em cerveja. Mas claro que isso já tinha sido pensado pelo rapaz. Kennick já tinha suposto que, ao ver que ele estava disposto a gastar desse jeito, talvez alguém que tivesse alguma informação sobre a punho vermelho se interessasse em bater um papo a sós. Com um pouco de sorte, as pessoas certas tentariam uma aproximação.

— Uma cerveja? — Perguntou a mulher, desacreditada por que o rapaz colocou as cinco moedas no balcão e pediu apenas uma cerveja. Ela pensou que ou ele não tinha noção nenhuma das coisas, ou estava tentando chamar atenção. — Você sabe que pode beber a noite inteira com isso, não sabe? — Indagou a elfa, apontando para as moedas. Kennick apenas deu de ombros.

— Ei, Broni. — Chamou um velho que estava sentado num dos lugares desse enorme balcão redondo, porém próximo de onde Kennick estava. — Não é da sua conta o quanto um homem quer beber. — Disse o velho ao mesmo tempo em que se virava para olhar Kennick. — Apenas sirva o rapaz de uma vez. — Deu uma piscadela para Kennick com seu olho direito. O rapaz notou que havia uma enorme cicatriz no olho esquerdo do homem, que ia do meio de sua sobrancelha até a maçã do rosto, num risco em diágonal. Esse olho era leitoso e totalmente branco.

—Fique quieto, Rov. — Disse a mulher, abanando um pano na direção do velho e pegando as moedas que o rapaz colocara sobre o balcão, guardando-as em seu avental. — Você só quer que ele te pague uma bebida. — Broni se voltou para Kennick e, com a mão que segurava o pano que usava para limpar o balcão, fez um gesto para o enorme salão, dizendo: — Fique a vontade para tentar achar uma mesa por aí, se quiser. Eu já peço para alguém ir te servir. — Ficou encarando o rapaz por mais um breve momento é ainda o encarando, apontou para os assentos no balcão. — Ou se preferir ficar por aqui mesmo, tanto faz. — Disse dando de ombros, mas ainda sustentando o olhar de Kennick ao seu.

— Eu vou para uma mesa então. — Disse o rapaz com um sorriso. — Mas por favor, sirva uma bebida para o meu amigo aqui, por minha conta. — Kennick deu um tapinha nas costas do velho e voltou a andar pelo salão, em busca de uma mesa vazia. O velho levantou sua caneca vazia e acenou com a cabeça, em cumprimento ao rapaz.

*

Só foi encontrar uma mesa mais afastada de toda a bagunça num lugar quase próximo à porta de entrada, pois as mesas que ficavam próximas ao palco, ao balcão de recepção e à uma lareira à esquerda do salão, já estavam todas ocupadas. O lugar escolhido não era tão ruim como imaginara que seria. O calor que emanava da enorme lareira se espalhava bem por toda parte, provavelmente por ser pelo fato de que a taverna estava lotada aquela noite, pensou Kennick. O único incômodo era que quando abriam a porta dupla da taverna, uma lufada de vento gélido entrava junto, mas logo se dispersava quando a porta era fechada.

Kennick ficou satisfeito com esse lugar, que embora fosse próximo da entrada, era até isolado devido a atenção que as pessoas davam para os artistas no palco, que já faziam outra de suas apresentações. Em poucos minutos, a própria Broni veio lhe servir a mesa. Colocou em sua frente uma bendeja com uma tigela de sopa fulmegante, dois pães grandes, um pouco de manteiga e pedaços de carne à parte, trouxe também uma jarra de cerveja juntamente com um caneco de madeira.

— Vai precisar de algo mais? — Perguntou a Elfa.

— Por enquanto não, obrigado. — Disse o rapaz já se servindo da cerveja. — Só estou tentando colocar os pensamentos em ordem. — Enquanto falava, Kennick observou que ocasionalmente alguns olhares se voltavam para ele.

— Uma coisa díficil essa. — Disse Broni indicando o caneco de cerveja que o rapaz acabara de encher. — Colocar os pensamentos em ordem enquanto se toma tanta cerveja eu digo, uma coisa quase impossível. — Em seguida, ergueu as duas mãos na frente do corpo, como se estivesse segurando duas coisas numa balança. — Pela minha esperiência, se você toma cerveja demais... — Nessa hora a Elfa ergueu um pouco mais uma das mãos e abaixou de leve outra. — colocar os pensamentos em ordem fica praticamente impossível.

— Não se preocupe. — Disse Kennick ainda olhando ao redor, percebendo quem o estava encarando e marcando seus rostos. — Esses meus pensamentos não vão me abandonar tão facilmente.

Broni notou que o rapaz parecia mesmo estar com o olhar distante.

— Bem, se precisar de algo mais, não hesite em chamar uma dessas pessoas de avental que estão servindo. — A Elfa já ia virar as costas quando o rapaz lhe chamou a atenção.

— Na verdade, você tem toda razão. — Kennick deu um longo suspiro e voltou sua total atenção para a mulher em sua frente. — Eu vou seguir o seu conselho e, não vou beber muito essa noite. Até porque preciso raciocinar direito. — Essa frase foi dita como que para si mesmo. — Mas eu precisarei que daqui alguns minutos você peça para alguém trazer mais cerveja. Eu preciso que as pessoas pensem que estou disposto a ficar bastante bêbado hoje. Isso vai facilitar para que alguém se aproxime tentando puxar alguma conversa.

— Mais cerveja? — Broni parecia não entender o porque de tanta bebida. — Devo trazer mais comida também? Se me permite dizer, o que você está gastando já é muito e se aceita uma sugestão, beber tanto sem comer nada vai acabar te fazendo mal.

— Não se preocupe com isso, essa bebida não é toda para mim.

— Não? Está esperando alguém? — kennick pôde perceber pelo tom de voz da mulher que ela estava fingindo, que já tinha no mínimo entendido que ele não estava ali somente para beber até ficar fora de si. — Devo trazer outros copos? — Broni já ia fazer sinal para que alguém que estivesse servindo viesse ao seu encontro, mas Kennick a impediu antes disso.

— Não se incomode em chamar alguém, por favor. — Disse o rapaz. — Só preciso de mais um copo e um terceiro favor, se não for muito incômodo. — Fez mais uma pausa e deu um bom trago em sua cerveja. — Eu gostaria que você me desse uma sugestão para uma companhia hoje. — Ao dizer isso isso, Kennick sustentou o olhar da mulher no seu.

— Sugestão de companhia? O que você está tentando dizer? — Broni apresentou agora os primeiros sinais de irritação. Sua voz se elevará perceptivelmente.

— Eu estou tentando entrar em contato com alguém da punho vermelho e gostaria de saber se você pode me ajudar com isso.

— Entrar em contato com a punho? — Broni fazia uma expressão confusa. — Porque você não vai diretamente até a base deles? Ela fica a leste da cidade. Não precisava vir até aqui e gastar todo esse dinheiro sendo que pode encontrá-los de graça por lá.

— Acontece que o serviço que eu tenho para eles é um tanto... — Kennick fez uma pausa, tentando encontrar a palavra certa. — Eu diria que um tanto complicado e fora dos padrões.

— Escuta aqui rapaz. — A Elfa se aproximou de Kennick e se curvou para que seus rostos ficassem no mesmo nível. — Se você está procurando alguma confusão, sugiro que se retire daqui agora mesmo. Ou eu serei a primeira a surrá-lo e te jogar porta afora. — Disse ela com a voz calma, baixa o suficiente para que apenas kennick a escutasse e olhando em seus olhos, o rapaz soube que aquela mulher seria bem capaz de fazer o que disse.

— Não estou procurando nenhuma confusão. — Disse o rapaz quase que gaguejando devido a súbita aproximação e pela beleza da mulher. — Apenas a oportunidade de uma conversa civilizada. É tudo o que peço. — kennick sustentou o olhar da mulher, como que tentando convencê-la de que estava falando a verdade.

Broni não disse mais nada, apenas pegou a bandeja vazia, deixou sobre a mesa as coisas que trouxera e saiu dali. Ao chegar novamente ao balcão, Kennick viu que enquanto o encarava, ela disse algo no ouvido de uma das moças que estavam atendendo naquele enorme balcão redondo. Rapidamente as mulheres trocaram de lugar e a moça adentrou a cozinha. kennick imaginou que lá dentro devia ter uma outra porta que dava acesso aos fundos da taverna, por onde o lixo era tirado e por onde funcionários iam e vinham.

Sua suspeita se mostrou correta pois minutos depois, essa mesma moça entrou na taverna pela porta da frente. O rapaz pensou que se ela não tivesse uma irmã gêmea idêntica, provavelmente tinha dado a volta no salão pelos fundos e durante o trajeto, deu algum recado a alguém.

Agora era só esperar.

*

Cerca de quinze minutos depois, um rapaz chegou trazendo o segundo jarro de bebida, como Kennick havia pedido. Passaram-se mais alguns minutos e ninguém havia ainda se aproximado tentando uma conversa. Mais algum tempo depois, começaram a surgir os interesseiros na bebida e no dinheiro do rapaz. Esses, kennick dispensava sem muita cortesia.

Quase uma hora depois que a Elfa deixou o Lied sozinho, um sujeito se sentou em sua frente. Era um Uraik. Se sentou sem dizer nenhuma palavra. Não pediu licença, nem cumprimentou o rapaz, absolutamente nada. Apenas olhava para kennick com um olhar divertido. Kennick o encarou de volta, fazendo anotações mentais sobre a aparência do homem. Um sujeito bem alto esse Uraik. Geralmente os homens dessa raça já são altos, mas este aparentava ser ainda mais alto, Kennick pôde perceber isso mesmo o homem estando sentado.

As principais características de sua raça são que eles são criaturas musculosas por natureza. Sua pele é dura como uma couraça. Não que não possam ser feridos, o que podem, mas para isso será necessário maior empenho e força de um possível inimigo. Possuem presas que sobresaem da mandíbula e vão até a altura do lábio superior. Essas presas ficam sempre à mostra, mesmo quando o Uraik está com a boca fechada.

Suas orelhas são pontudas na parte superior, algumas são levemente curvadas para trás e outras seguem a afunilação para cima. Sua pele varia de cor assim como os Lieds e a pelagem dos Doslus. Alguns tem sua pele num tom de azul escuro, há aqueles que a tem num tom mais acizentado, outros a tem num tom mais avermelhado, alguns a possuem num tom verde, outros ainda tem sua pele quase negra.

Esse uraik porém, tem sua pele num tom verde opaco, como uma folha que caiu de uma árvore e logo vai perdendo a cor. Seus olhos são ainda mais verdes que sua pele, brilhantes e chamativos e, como todos da raça, sua íris fica na vertical, como os olhos de um felino.

Os Uraiks possuem ainda outra característica única de sua raça, sua pele possui marcas. São formas circulares aleatórias que percorrem todo seu corpo, serpeando e fazendo curvas, indo e voltando. Essas marcas percorrem o corpo dos uraiks do alto da cabeça até os pés. Podem ser sentidas com um dedo, pois são em baixo relevo e tem a espessura de uma unha.

Seu cabelo preto e denso se derramava solto por cima dos ombros. Sua barba, também negra, era rala e exibia um cavanhaque fino. Vestia um gibão marrom aparentemente bem cuidado com uma calça preta de lã. Kennick pôde ver que ao lado da cintura, o homem carregava uma espada média.

— Posso ajudá-lo? — Kennick perguntou com calma, não transparecendo apreensão na voz nem nervosismo.

— Parece que é você quem está astrás de ajuda, rapaz. Ou de encrenca? — A voz do Uraik era firme e bem gesticulada, não falava alto mas Kennick podia ouvi-lo claramente. — Eu ouvi dizer que você está querendo falar com alguém da "punho vermelho". — O Uraik disse o nome da guilda quase num cochicho, com uma fingida cautela.

Kennick não se intimidou com a presença daquele homem, permaneceu calmo e o observava o tempo todo.

— É, estou querendo falar com alguém da punho vermelho sim. Estou atrás de algumas informações que eu acho que eles podem ter ou adquirir. — Kennick fingiu dar um bom gole em sua cerveja e, enquanto estava com o copo levantado, olhou para o Uraik por um breve momento, a fim de ver se o sujeito fazia alguma expressão ou algo do tipo que sugerisse que sabia de algo, mas não percebeu nada nas feições do homem.

— E que tipo de informações seriam essas? — De repente o homem pareceu lembrar de algo importante e antes que Kennick começasse a falar, continuou. — Primeiro. Desculpe-me. Permita me apresentar adequadamente. Eu me chamo Toan, sou um membro da punho vermelho e não gosto de pessoas que nos procuram assim tão abertamente, sem discrição nenhuma. E você é? — Toan disse tudo isso com uma falsa etiqueta exagerada e muito sarcasmo na voz.

— Eu me chamo Kennick, não moro nessa cidade mas venho aqui com uma certa frequência, ainda mais nessas últimas semanas. Meu mentor, um humano chamdo Askelad desapareceu já faz um tempo e até agora, ninguém da guarda de Baum pôde me dar nenhuma resposta sequer. E enquanto eu confiava que eles fariam seu trabalho, eu o procurei nas vilas próximas de onde moramos, mas parece que ninguém ouviu sobre ele, muito menos o viu. — Kennick resumiu o máximo que pôde as informações porque não sabia se podia confiar nesse Uraik, por isso resolveu dizer o que todos já sabiam e que seria fácil de ser descoberto.

— E por isso você veio nos procurar porque... — Toan fez um gesto circular com uma das mãos, indicando que Kennick continuasse com a sua história.

— Eu vou direto ao assunto. — Kennick se ajeitou na cadeira de modo que ficasse um pouco mais inclinado para frente. — Porque eu sei que vocês fazem todo tipo de serviço. E quando eu digo "todo", eu não me refiro à somente cumprir algumas missões simples como encontrar um cavalo roubado, ou entregar mensagens em lugares distantes que as pessoas geralmente não vão por conta dos perigos nas estradas. Eu sei o porque das pessoas buscarem vocês e sei o que vocês representam. — Kennick estava blefando, claro. Pois até aquela mesma noite, imaginava que as guildas eram todas iguais e disputavam entre si para ver quem ficava com os serviços de que a população necessitava. Mas tentou se lembrar ao máximo as palavras que Lenil disse sobre a guilda e tentou reproduzí-las do seu próprio jeito.

— Cuidado garoto, cuidado com o que você fala e onde você fala. — Toan usou um tom menos simpático agora.

Com isso, kennick teve a certeza que procurava, que a punho vermelho era bem mais do que aparências. Parabenizou mentalmente o velho Lenil por essa sugestão de entrar em contato com a guilda.

— Longe de mim querer ofender você ou alguém da guilda. Peço desculpas se o fiz. Mas o que quero dizer é o seguinte. É impossível que Askelad tenha sumido sem ninguém sequer tê-lo visto em algum lugar. — Encostou o cotovelo esquerdo na mesa e com a mão erguida, fez um movimento circular, como quem indica um área inteira. — Já notou como é a segurança dessa cidade? em todo lugar você esbarra com alguém da guarda. Dia e noite as patrulhas rondam os muros desse lugar e há quatro torres de vigia, uma em cada canto da cidade. Um homem precisaria ser como um fantasma para entrar ou sair daqui sem ninguém tê-lo visto.

— Mas essa cidade foi o último lugar em que esse sujeito esteve? — Perguntou Toan.

— Não, não foi. Mas o ponto é que a guarda trabalha arduamente nessa cidade. Eles seguem todas as ordens dos seus superiores, mesmo a contra-gosto. O que me leva a conclusão de que não estão procurando Askelad porque não o querem fazer. Porque se eles realmente o procurassem, pelo menos uma pista já teria sido descoberta a essa altura, não acha? — Kennick se inclinou mais ainda pra frente na mesa e falou de uma forma que com certeza só o Uraik escutasse. — Eu suspeito que a própria guarda esteja envolvida nisso. E é por isso que preciso dos seus serviços.

— É um ponto de vista. — Disse Toan coçando o queixo. — Você disse que o nome de seu mentor era Askelad?

— É Askelad. Ele está vivo. Eu sei disso. — Kennick respondeu com um pouco de raiva. — Ele é um homem muito inteligente e habilidoso. Seria preciso muitos homens para darem um fim nele. Eu tenho certeza de que arrumou um jeito de permanecer vivo. Eu só preciso encontrá-lo.

Toan pareceu não se importar com o ímpeto do rapaz ao descrever as façanhas de seu mentor.

— Eu já ouvi histórias sobre um tal Askelad que fazia parte da guarda do país, ou que lutava no exército ou qualquer coisa do tipo. Dizem que ele já foi um grande guerreiro. Seria esse o mesmo askelad que você procura?

— Sim. Ele é o homem que me criou desde que eu tinha quatro anos de idade. Está desaparecido já há várias semanas e eu gostaria de saber se vocês poderiam me ajudar.

— E por que você não tentou entrar em contato conosco na nossa base? Talvez nós até aceitássemos esse serviço. — Toan deu de ombros quando disse essa última frase.

— Por que se as minhas suspeitas estiverem certas e a própria guarda estiver envolvida no caso, o que explica o desinteresse deles nas buscas, uma missão oficial de uma guilda não traria os resultados que procuro. Se eles soubessem qual é a sua missão, achariam um jeito de dissuadí-lo ou tentariam te impedir de toda forma possível. E também, eu tenho minhas próprias habilidades de rastreamento. Já fiz tudo o que vocês provavelmente fariam num caso desses e ainda mais. O que eu preciso... — Agora Kennick olhava nos olhos do uraik. — É que vocês usem toda sua influência para achar Askelad.

Toan não disse nada por um momento. Uma outra moça trouxe mais uma jarra de bebida e colocou entre eles. kennick indicou para que o Uraik ficasse a vontade e se servisse. Depois que a moça se retirou, Kennick prosseguiu.

— Veja bem. Não é novidade ele estar fora por alguns dias e depois voltar como se nada tivesse acontecido. Desde quando eu era muito novo isso já acontecia. Mas agora, faz semanas que ele sumiu e nenhuma alma o viu nem partir nem chegar. Algo aconteceu e eu temo pelo pior. Não precisa ir atrás dele por mim, isso eu mesmo posso fazer. Só preciso de uma informação, uma direção a seguir, qualquer informação é melhor do que nada. — Kennick percebeu que começou a parecer realmente desesperado, pois falava rápido e sua respiração ficou quase ofegante. Voltou então a respirar fundo e a se acalmar.

Se o Uraik percebeu o nervosismo do rapaz, não disse nada a respeito. Tão somente permaneceu em silêncio, como se quisesse organizar os pensamentos. Esvaziara o copo de cerveja rapidamente e agora estava se servindo outra vez.

— Um trabalho desses não será barato, garoto. Acredito que você esteja ciente disso. — Toan continuava quase que indiferente e apesar de ainda estar falando com evidente calma, seus olhos fitavam kennick, querendo dizer que isso era um negócio sério e que o rapaz devia saber onde estava se metendo. — Não sei se você sabe disso, mas nós temos duas formas de pagamento para realizar-mos uma missão.

Kennick franziu o cenho e fez que não com a cabeça.

— O primeiro é com dinheiro, claro. E já adianto que é bom que você tenha como nos pagar. metade antes da missão começar e metade após a conclusão da mesma. — O sujeito se servia de mais cerveja enquanto falava. — Você vai comer isso? — perguntou apontando para os pães e a carne na bandeja que estavam diante do rapaz, que nem tinha mexido na comida, como também nem tinha interesse, fez então a bandeja deslizar para o Uraik, que se serviu feliz, mesmo a comida estando fria.

— E a segunda forma é? — Kennick se esforçou para parecer neutro.

— A segunda forma é nos devendo um favor. Claro que nós não falamos essa segunda opção para todos que nos contratam. Imagine só a confusão que seria se todos soubessem disso. E também, tem missões que só aceitamos fazer por dinheiro mesmo. — Toan falava enquanto enfiava um bom pedaço de pão na boca e o empurrava goela a baixo com cerveja. — Mas você me parece do tipo que sabe como guardar um segredo, certo? — Nem esperou Kennick responder e já acrescentou. — Serão dez moedas de ouro por agora e dez após o término da missão.

— Vinte moedas? — kennick ficou claramente espantado com o absurdo do valor.

— Ou um favor. — Toan acrescentou com um sorriso ao mesmo tempo em que rasgava um pedaço de carne com os dentes.

— Mas isso é... — Kennick começou a falar, mas logo desistiu do protesto. Deu uma bufada e continuou. — Tudo o que eu possuo não dá mais do que dez moedas de ouro, não tem como nós negociarmos isso?

O Uraik ficou em silêncio por um longo momento, talvez estivesse pensando em alguma alternativa para aquele negócio. Quando pareceu chegar numa conclusão, retomou a conversa.

— Podemos fazer o seguinte. — Disse enquanto comia e bebia mais. — Você consegue quinze moedas de ouro e fica nos devendo um favor. O que me diz?

Kennick não respondeu de imediato, sabia que se aceitasse os termos, estaria amarrado à uma guilda de mercenários e sabe-se lá o que eles poderiam pedir que ele fizesse. Pior ainda, sabe-se lá o que eles fariam com ele caso, se recusasse a fazer o ordenado.

— Eu preciso de garantias de que obterei informações. — Disse Kennick. — Você entende que eu não posso simplesmente dar ouro a você e acabar amarrado a uma promesa sendo que nem sei se o que eu pedi vai ser feito com certeza. — O jovem Lied parecia decidido a aceitar a oferta, mesmo sabendo dos riscos. — Você pode me prometer de que alguma informação será obtida?

— Eu posso te garantir de que nós faremos todo o possível para cumprir a tarefa. Mas você também deve entender a difculdade do que está pedindo. — Toan falava muito sério agora. — Se nem mesmo você, que tem certa habilidade em rastreamento, como você mesmo disse, não conseguiu achar absolutamente nada, significa que a missão é de uma dificuldade incomum. E além do mais, nossa guilda tem enfrentado seus próprios problemas ultimamente. Então, acredito que o preço é justo, quando levamos tudo isso em consideração. — O homem olhava kennick nos olhos enquanto falava e, por alguma razão, o rapaz achou que o sujeito estava falando a verdade.

— Está bem. — Kennick deu um suspiro longo. — Eu aceito o seu preço. Mas acontece que eu não tenho todo esse dinheiro para te dar agora. Preciso de um tempo até juntar essa quantia.

— Isso já é assunto seu, garoto. — O Uraik já ia se levantando para sair e deixar Kennick sozinho. — Eu estarei na cidade por mais dois dias e aconselho que você consiga as quinze moedas nesse tempo limite.

— E o que acontece se eu não tiver o dinheiro até daqui a dois dias? Tem alguma outra pessoa da guilda com quem eu possa falar na sua ausência?

Toan já de pé respondeu:

— Com certeza você deve ter visto um velho com uma cicatriz no olho ali no balcão. — Indicou o lugar com a cabeça. — Ele se chama Rovard, está sempre por aqui. Se você não encontrá-lo aqui, pergunte à Broni por ele, ela saberá o que fazer. Rovard também saberá o que fazer e estará instruído sobre o assunto. Mas você fez negócios comigo, entendeu? — Agora Kennick pôde ver com mais clareza o quanto esse sujeito era alto, pois havia parado ao seu lado, apoiou as duas mãos sobre a mesa e falou com um tom diferente de toda conversa até então. — Se uma outra pessoa for contratada para esse serviço, eu irei atrás de você. — Disse em tom sério.

Kennick assentiu com a cabeça. Se sentiu um tolo por não ter percebido quem era o velho no balcão logo quando chegou na teverna. Ele viu o velho Rovard, trocou meia dúzia de palavras com o sujeito, pagou uma bebida ao homem e ainda ouviu Broni chamá-lo de Rov, mas não conseguiu distinguir quem o sujeito era de verdade. Afastou esse pensamento antes que queimasse de vergonha. Se confortou com a idéia de que tudo se ajeitara no final. Pelo menos, é o que parecia.

— E se eu não quiser mais que o serviço seja feito? — Kennick perguntou mais por diversão do que pela própria curiosidade em si.

— Nem você é tão tolo, rapaz. — Agora Toan já estava andando e Kennick o observava enquanto saía pela porta dupla da taverna.

— Foi o que eu pensei. — Disse o rapaz pra si mesmo, enchendo novamente seu copo e dando mais um trago na cerveja.

Decidiu ficar por ali mais um tempo enquanto acabava sua bebida. Pensou que também não seria uma boa idéia sair ao mesmo tempo que o Uraik, pois não queria levantar nenhuma suspeita sobre a conversa que acabaram de ter.

Mas era ingenuidade achar que ninguém tinha percebido nada sobre o que acabara de acontecer ali. Afinal, uma taverna é um lugar cheio de olhos e ouvidos.

*

Kennick permaneceu naquele mesmo lugar ainda por um bom tempo. Agora que já havia conseguido fazer o que tinha em mente, só lhe restava se organizar para conseguir todo o dinheiro que precisava. Analisava todos os meios e todas as possibilidades que fariam com que conseguisse a quantia de quinze moedas de ouro.

Haviam algumas peles em sua casa que poderiam ser vendidas. Pela urgência que o rapaz queria, talvez o preço pudesse cair bastante do que era de costume, mas mesmo assim, seria melhor que nada. Porém, havia a questão do tempo. Toan disse que estaria na cidade por mais dois dias apenas. Mesmo Kennick ainda podendo fechar negócios com Rovard em nome do Uraik, era muito melhor entregar o dinheiro ao próprio Toan. Sendo assim, a venda de peles poderia não ser a solução mais viável, devido ao tempo que levaria para ir até o mercado de peles na fronteira de Bortul, mais o tempo que levaria para voltar à Baum. Nisso, os dois dias já teriam se passado fácilmente. Precisava então de uma outra alernativa. Mas qual, era ainda sua dúvida.

Seus pensamentos foram interrompidos quando um homem se sentou à sua frente. Exatamente como o Uraik fizera antes. Mas dessa vez, era um humano. A primeira coisa que o rapaz notou, era que tanto sua aparência quanto suas vestes, eram muito bem cuidadas. O sujeito tinha um cabelo amarelo bem longo, preso num rabo-de-cavalo, sua barba farta era da mesma cor. Ambos muito bem aparados e com o corte impecável. Suas roupas, embora simples, eram limpas e sem nenhum remendo. Vestia uma camisa de linho de manga longa e uma túnica marrom por cima. A túnica ia até o meio das coxas e era amarrada à cintura com uma corda fina de couro, deixando a parte inferior da túnica solta como uma saia. Askelad costumava usar sua túnica do mesmo modo. Dizia que podia esconder várias facas na região da cintura.

O sujeito ficou apenas encarando Kennick com evidente curiosidade. Esbanjava um sorriso debochado, como se quisesse dizer que fosse o próprio dono do lugar e por isso podia fazer o que bem entendesse, como se sentar naquele lugar, por exemplo.

— Quem é você? — Kennick já estava perdendo a paciência com o sujeito sem nem ao menos trocar meia dúzia de palavras com ele. Mas só a presunção e aquele sorriso já haviam irritado o rapaz. Por isso, a pergunta saiu num tom mais evasivo do que o próprio kennick esperava.

— Um amigo. — Disse o recém chegado. — Eu vi que você acabou de conversar com um Uraik. — inclinou a cabeça na direção da porta. — E sei que não é da minha conta, mas achei que devesse alertá-lo sobre fazer acordos com aquele sujeito. — Kennick arqueou as sobrancelhas como se não estivesse acreditando no que ouvia.

— Obrigado pelo aviso e você tem toda razão. — Disse kennick. — Não é da sua conta os acordos que eu faço com aquele Uraik. — O rapaz usou um tom o mais sarcástico possível ao dizer as mesmas palavras que aquele sujeito.

O homem achou aquilo divertido, deu um sorriso e prosseguiu:

— Será que você poderia me fazer a gentileza de dizer sobre o que estavam conversando? — Enquanto o homem dizia isso, foi se inclinando para frente e cruzando os braços sobre a mesa, como se estivesse disposto e empolgado a ouvir uma grande história. Nesse momento, Kennick notou que o homem usava oito anéis em sua mãos. A não ser pelos polegares, todos os outros dedos tinham um anel de tamanho específico. Kennick estranhou isso, pois os anéis pareciam ser feitos de osso. Uma peça única esculpida em osso. As cores variavam entre marrom, cinza e preto.

Kennick riu, estava desacreditado de que alguém tão estranho, enxerido e ousado esteja agora na sua fente.

— Meus negócios não te dizem respeito e eu apreciaria muito se você se levantasse daqui agora e fosse cuidar da sua própria vida, antes que eu meta uma faca na sua garganta. — Kennick falou com um sorriso no rosto, mas isso não anulava a seriedade em suas palavras.

O homem ignorou a ameaça proferida pelo rapaz e continuou como se os dois fossem conhecidos de longa data.

— Acredito que você saiba que ele faz parte de uma organização criminosa chamada "punho vermelho". A guilda é só uma fachada para cobrir os crimes que eles cometem. Embora não deixem rastros de seus feitos e ninguém encontre provas de seus crimes, todos sabem o que eles são e o que eles fazem. — O homem pareceu muito calmo ao dizer essas coisas. Era como se ele não temesse os homens da guilda de forma alguma.

Kennick não disse nada, tão somente deu uma suspirada de desdém. Ficaram se encarando por um longo momento, quando Kennick já estava a ponto de perder a paciência disse:

— Quem você pensa que é pra chegar aqui nessa pose de manda-chuva, querendo saber com quem faço meus negócios e quais são eles? — O rapaz levou a mão para trás, na altura da cintura e encarou o homem mais uma vez, dizendo com a voz baixa mas com raiva. — Dê logo o fora daqui, é o último aviso.

— Então quer dizer que negócios foram feitos com certeza. — O sujeito deu um sorriso e foi se levantando da cadeira, mas antes de ir embora disse: — Nós nos veremos novamente, garoto. Tenha uma boa noite.

Kennick ergueu sua caneca de cerveja em um falso cumprimento ao homem, mas não disse palavra alguma. Tão somente pensava no que acabara de dizer ao sujeito e pelo que disse, o homem conseguiu chegar a conslusão de que ele havia feito algum acordo com o Uraik e isso, talvez fosse perigoso demais.

E enquanto Kennick ainda o encarava, assim foi embora esse estranho.

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Saudações rapazi.

O que acharam dessa forma alternativa de Kennick para obter pistas sobre Askelad?
Sera que Toan é de confiança?
E esse sujeito misterioso que tentou saber sobre Kennick?
Algum palpite?

Fiquem a vontade para deixar suas opiniões.

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