Depois de pouco mais de uma hora bebendo, kennick decidiu que já era hora de ir embora, mas ao sair da taverna, não imaginava que o mundo estava se acabando em água. A chuva estava tão forte que se formavam torrentes de água nas ruas agora completamente vazias. O lixo que estava espalhado pelas ruas da cidade foi varrido pela força da chuva e se acumulava em alguns pontos, formando uma pequena barreira, porém a água da chuva passava sem problema algum. Isso fazia com que as ruas ficassem alagadas em vários lugares.
kennick pensou até em voltar para a taverna e esperar a chuva pelo menos diminuir, mas se ficasse lá dentro, sabia que acabaria gastando mais dinheiro. Sabia também que com esse acordo feito com o Uraik, precisaria economizar como nunca e não poderia mais se dar o luxo de gastar como antes. Também não podia correr o risco de perder tempo, já que tinha apenas dois dias para conseguir o dinheiro que precisava e pagar Toan pelo serviço, usaria esse tempo o máximo possível, pois até o momento, não havia conseguido pensar em nada que o fizesse ganhar uma quantia tão alta em pouco tempo. E pior seria se ficasse bêbado demais essa noite. Provavelmente no dia seguinte perderia muitas horas de sol, devido as consequências da bebida e talvez nem conseguisse achar um meio de conseguir o dinheiro. Portanto, voltar à taverna estava fora de questão.
Ainda na cobertura do lado de fora da taverna, pensou em como a vida era engraçada, em como a situação financeira de alguém podia mudar tão rápido. Numa hora, podia beber quanta cerveja quisesse e comer o que quisesse. Na outra, tinha que enfrentar uma tempestade para evitar de gastar o que não podia. Riu então de sua situação, respirou fundo e decidiu encarar a chuva. Correr já não adiantava, pois ficaria ensopado até a alma de qualquer jeito. Tudo o que pôde fazer era cruzar os braços rente ao peito para tentar afastar o frio e se culpar mais uma vez por não ter trazido consigo sua capa com capuz. Pelo menos era uma proteção a mais. Não que alguma coisa fosse realmente proteger alguém de toda aquela água, claro.
Enquanto andava de braços cruzados e cabeça baixa, o rapaz voltou o pensamento mais uma vez para a questão do dinheiro que faltava. Como havia dito antes à Toan, se tivesse mais do que dez moedas de ouro, seria muito. E precisava de mais dez moedas para pagar o combinado e ainda ter algum dinheiro sobrando para suprir algumas necessidades básicas durante suas viagens. Como ele conseguiria esse valor é que ainda era um mistério. Já havia descartado a possibilidade de vender algumas peles que tinha em casa. O preço seria abaixo do esperado e o tempo que levaria até encontrar Toan já teria acabado. Poderia ainda tratar com Rovard, mas novamente o tempo era um empecilho e a certeza não era a mesma.
Enquando pensava sobre a questão do dinheiro, Kennick decidiu fazer o caminho mais longo para chegar à pousada, pois algumas ruas não eram pavimentadas ainda e a chuva transformou essas passagens em barro escorregadio. O caminho mais longo era justamente para evitar essas ruas. Pensou que como já estava ensopado, ensopado estaria de qualquer jeito. Era muito melhor chegar na pousada e só colocar as roupas para secar, do que ter que limpar toda a sujeira que a lama faria.
Com esse trajeto, em algum momento o rapaz entrou numa rua sem saída e, como estava de cabeça baixa, ainda distraído com toda questão de dinheiro e tempo, só percebeu que a rua era fechada quando já havia andando um bom pedaço dela. Era uma rua comprida e a escuridão não ajudava muito, pois todos os candeeiros em postes estavam apagados. Provavelmente a chuva conseguiu atravessar a proteção de vidro das lâmpadas e apagou o fogo. O que dava uma leve luz pálida e bruxuleante eram algumas luminárias na frente de casas com a frente coberta em pontos bem esparsos nessa rua.
O rapaz então murmurou de raiva de si mesmo e se virou para voltar. Só não esperava que agora um sujeito estaria ali, barrando sua passagem de volta.
*
O homem estava segurando uma enorme faca de caça, se aproximou de Kennick devagar e, antes que o rapaz pudesse passar por ele e atravessar para o outro lado, a fim de sair dali correndo, o homem se interpôs no seu caminho. No mesmo instante Kennick entendeu o que aconteceria a seguir e que não tinha como escapar sem lutar.
— Você gastou um bom dinheiro lá na taverna. — Começou o sujeito. — E quem gasta bastante apenas em bebida sempre tem um trocado a mais. Não é, Cistra?
— Sempre tem. — Disse uma outra voz masculina. Um outro sujeito se juntou ao homem que já barrava a passagem de Kennick. — E eu disse que a noite estava ótima para uma bebida, não disse?
Kennick teve a impressão de que já ouviu aquela voz em algum lugar antes. Mas a certeza só veio quando, ao tirar o excesso de água do rosto, fitou o recém chegado. Era o homem que o cumprimentou na entrada da taverna. Bem que achou estranho a princípio alguém ser cordial com ele. Claro que ninguém seria simpático daquele jeito a troco de nada. Pensando nisso agora, o rapaz até riu de si mesmo por acreditar que alguém estaria mesmo disposto a ser educado com um Lied em Nolas.
Viu uma espada média nas mãos do recém-chegado, mas não viu nenhuma bainha na cintura ou nas costas do sujeito, tampouco a arma estava com ele quando se encontraram pela primeira vez na entrada da taverna. Esse encontro não foi por acaso, provavelmente já estavam de olho em Kennick já fazia um tempo, isso explicaria a formalidade horas antes e a aparição da arma justamente naquele momento. O rapaz soube que o estavam espionando para atacar na hora oportuna. E não havia momento mais perfeito para um assalto, pois o barulho da chuva e as ruas estando desertas proporcionavam uma grande vantagem aos assaltantes.
— Vocês estavam em três lá na entrada da taverna. — Disse kennick. — Onde está o outro que estava com vocês?
— Ele não é muito bom em tomar dinheiro dos outros. — Disse dando de ombros o homem que segurava a faca. — Mas nós, — Agora o sujeito se aproximava. — Nós somos ótimos no que fazemos.
*
Enquanto terminava de falar, o sujeito com a faca começou a correr na direção do rapaz. O outro sujeito porém, ficou onde estava, com o intuito de analisar as reações do Lied ao enfrentar seu companheiro. Kennick soube que tinha que acabar rápido com aquilo. Enquanto o sujeito se aproximava cada vez mais, o rapaz olhou brevemente para o céu e sentiu o silêncio molhado da noite tocando-lhe o rosto. Levou os braços para trás da cabeça, como quem fosse se render e, com a mão esquerda tirou uma lâmina de atirar que escondia logo na base da gola de sua jaqueta.
Ali, na região da gola, havia uma bainha interna embutida no tecido grosso da roupa, de onde o rapaz tirou a lâmina de dois gumes, curta e sem cabo, tinha apenas uma tira de couro enrolada no lugar onde seria a guarda. Com precisão, atirou então a lâmina na direção do homem que já estava correndo ao seu encontro.
O homem parou de correr abruptamente e por uma fração de segundo, conseguiu sair do caminho da lâmina de Kennick. Mas antes de perceber que aquela arma era apenas uma distração, o rapaz já estava muito próximo. O sujeito teve que fazer outro esforço para sair do caminho de kennick e, após o Lied passar pelo homem, se viu nesse momento entre os dois, cercado.
Kennick tinha pouco tempo antes que o tal Cistra resolvesse entrar na briga e os alcançasse, fazendo que a vantagem numérica ficasse a favor dos ladrões. Resolveu que teria que lidar primeiro com esse sujeito o mais rápido possível. Distribuiu então uma sequência de socos no homem em sua frente, que desviou de alguns mas foi atingido por outros. O rapaz parou de atacar para tomar fôlego e isso pareceu ao homem que era a oportunidade que precisava para investir contra o Lied.
Segurando o cabo da faca de modo que ela ficasse invertida, o sujeito correu então na direção do rapaz e investiu vários golpes laterais mirando o peito e o pescoço de Kennick, que desviava sem maiores dificuldades, apenas dando passos para trás e para os lados. Num desses golpes, Kennick conseguiu segurar o punho do homem no meio do trajeto e quando um outro golpe vinha da outra mão, em direção ao seu rosto, o rapaz também conseguiu segurar o punho fechado do homem em sua mão aberta. Assim os dois ficaram se encarando por um segundo, ambos de braços abertos.
Agora o outro sujeito corria em direção aos dois e como kennick estava de costas para o homem, era um alvo fácil. Porém, Kennick aproveitou o instante de surpresa do primeiro inimigo ao ver seus golpes sem efeito nenhum sobre ele e forçou seu corpo para a direita, a fim de que eles girassem e trocassem suas posições. Agora Kennick não estava mais cercado, mas ainda não estava totalmente fora de perigo.
— Segure ele assim. — Gritou Cistra. Sem saber que era kennick quem segurava os braços de seu companheiro.
Nesse instante, o homem com a faca decidiu fazer o cabo da arma girar em sua mão, deixando a lâmina apontada para o braço do rapaz. Mas Kennick já sabia dessa possibilidade e até esperava por isso, pois no meio do movimento, a faca ficaria frouxa na mão do sujeito.
No exato momento em que o homem começou a girar o cabo da arma, Kennick soltou sua mão e com o seu punho fechado, deu uma pancada por baixo do pulso do homem, fazendo-o deixar a faca escapar de sua mão.
Tão rápido quanto seu treinamento lhe permitiu ser, Kennick conseguiu pegar a faca com sua mão esquerda e com a direita ainda segurando a outra mão do homem, torceu seu punho e no mesmo movimento, se pôs a ficar atrás do sujeito, mantendo-o preso pelo braço torcido. Colocou a faca no pescoço do homem, fazendo uma leve pressão em sua garganta e dali, um fio de sangue deslizou pela lâmina e começou a pingar no chão molhado, onde era logo diluído pelas poças de água formadas pela chuva que ainda caía.
— Eu acho melhor vocês irem embora agora. — Disse Kennick tendo que levantar a voz de modo que o outro homem também pudesse ouvir. — Não quero ser obrigado a matar vocês.
— Vai precisar de muito mais do que isso para me parar, garoto. — Disse o sujeito com certa dificuldade para falar, por causa da lâmina fazendo pressão em sua garganta.
Como seu braço direito estava agora livre, puxou uma segunda faça escondida por baixo de sua camisa. Kennick percebeu quase tarde demais. O homem investiu com a lâmina apontada para a barriga do rapaz. Mesmo de mal jeito, o golpe teria seu resultado. Kennick se viu então sem saída e foi obrigado a empurrar o homem para frente, mas não antes de ser atingido na lateral direita do corpo.
O sujeito foi aos tropeços até onde seu companheiro estava. Tossir profusamente, uma tosse forte, seca e rouca. E colocando a mão na garganta, sentiu o sangue ainda fluir sem parar, pois na hora em que o Lied o empurrou, a faca cortou ainda mais a pele do pescoço. Mais um pouco e o sujeito estaria morto.
— Esse merdinha. — Vociferou o homem e já ia para cima de Kennick novamente, se não fosse por Cistra, que o segurou pelo braço.
— Se controle. Não vê que o moleque sabe brigar? Você vai acabar morto se continuar atacando desse jeito. — Cistra dizia essas palavras enquanto encarava Kennick. — Vamos atacar juntos. Duvido que o filhote de Lied seja capaz de dar conta de nós dois ao mesmo tempo. — O sujeito com a espada começou a andar em zigue-zague pela rua, ainda encarando Kennick. — Esse serviço tem que valer muito a pena. — Disse depois de uma pausa. — Ele disse que o moleque estava gastando muito lá na taverna e provavelmente tinha muito mais dinheiro, não disse? — Quando seu companheiro ferido e furioso concordou, Cistra concluiu. - Ótimo, vamos acabar logo com isso.
*
Kennick se perguntou sobre quem os homens estariam falando. Alguém os mandou ou os contratou para esse serviço, mas quem poderia ser?
Talvez fosse o terceiro homem visto com eles ao lado de fora da taverna. Mas se os três estavam juntos do lado de fora, como saberiam o quanto foi gasto pelo rapaz no lado de dentro? Havia um quarto homem? kennick se irritou porque esse pensamento era vago demais, abrangente demais. O mandante poderia ser qualquer um. Poderia ser o Uraik tentando enganá-lo de alguma forma, poderia ser o sujeito curioso exigindo saber dos seus negócios, poderia ser até o velho Rovard, ou até mesmo Broni, talvez.
Tão logo a pergunta lhe veio à mente, afastou-a na mesma velocidade, pois não adiantaria nada pensar nisso agora. Sabia que as possibilidades eram várias e esse pensamento acabaria atrapalhando o raciocínio necessário para vencer essa luta. Portanto, afastou esse questionamento e tentou se concentrar no que devia fazer no momento presente.
Se posicionou de forma a ficar próximo da parede lateral de um estabelecimento, afim dela oferecer uma proteção às suas costas, pois o terceiro sujeito podia estar escondido em algum lugar ali por perto, só esperando uma oportunidade para golpeá-lo num ponto cego, ou partir para ajudar os companheiros num momento crítico.
Mal teve tempo de se posicionar e os dois sujeitos já estavam correndo em sua direção, ao encarar cada um nos olhos, pôde ver a determinação dos dois. Segurou então o cabo da faca de modo que a lâmina ficasse sempre virada para o lado de fora de seu corpo, assumiu posição de guarda e permitiu a aproximação dos seus inimigos.
Enquanto Cistra investia em estocadas, fazendo o rapaz ir cada vez mais para trás e para os lados, pois não conseguia desviar todos os golpes da espada com apenas uma faca, o outro sujeito tentava fazer os mesmos movimentos de antes, atacando em grandes golpes laterais, mirando o peito de Kennick.
O jovem Lied estava sendo empurrado para trás e a desvantagem começava a ter seus efeitos, pois o corte na lateral do corpo ainda sangrava e fazia o corpo doer em espasmos agudos quando a região do ferimento era esticada, devido a movimentação contínua do rapaz. Em breve, os homens conseguiriam atingí-lo e tudo acabaria ali.
Quão desesperadora era a sua situação agora, atacado por dois homens e estando apenas com uma faca roubada para se defender. Se sentiu ainda mais tolo agora por não ter trazido suas adagas de combate ou pelo menos uma das espadas de Askelad.
De repente, sua mente deu um lampejo como se ele tivesse entendido agora um segredo de muito tempo atrás. O rapaz finalmente descobriu como conseguiria a quantia que lhe faltava para pagar Toan. Como Askelad era um ex oficial do exército, ainda tinha boas armas e armaduras, todas estavam guardadas em sua casa. kennick iria então vender algumas dessas coisas e assim conseguiria o dinheiro num único dia. Era perfeito.
Mas antes de colocar em prática esse plano, precisava sair dali vivo. Deixou então seus inimigos o conduzirem para o fim da rua sem saída e quando já estava próximo daquele muro, desviou de mais uma estocada e ao desviar do segundo homem, conseguiu chutar o sujeito na altura da coxa, com o intuito de irritá-lo ainda mais. Se virou então e correu em direção ao muro.
— Ele resolveu fugir. — Berrou Cistra.
— Como se eu fosse deixar. — Disse o outro sujeito já disparando atrás de Kennick.
Cistra ficou para trás por poucos passos, somente para o caso de o rapaz conseguir se desvencilhar de seu companheiro e tentar fugir novamente pelo lado oposto.
Enquanto corria, Kennick se lembrava das palavras de Askelad em seus treinamentos.
" — Numa batalha, o sujeito que está mais afoito é sempre o primeiro a morrer. — Dizia seu mentor. — Explore esses pontos fracos óbvios e se livre primeiro desse tipo de inimigo."
Askelad tinha lhe dito isso durante um treinamento. Kennick aprendera a duras penas que o essencial em uma batalha era manter a calma.
O sujeito vinha correndo atrás de Kennick e já estava quase o alcançando quando, com uma precisão mortal, o rapaz conseguiu dar dois passos rápidos na parede antes de pegar impulso e se lançar para trás novamente, em cima do homem.
Ao dar impulso com a perna direita, o rapaz já deixou a esquerda flexionada, de modo a deixar seu joelho a frente do corpo, acertando o sujeito na altura do peito. O golpe foi rápido e violento, pois ao se aproximar de Kennick com velocidade, o homem não conseguiu se desviar e, como resultado, foi lançado ao chão com uma violência incrível, bateu com a nuca no chão duro e molhado, ficando inconsciente na mesma hora, devido tamanha força e impacto do golpe.
Kennick pegou então a outra faca do sujeito e arfante, encarou Cistra, cuja feição era de espanto pelo que acabou de presenciar.
*
Agora era o Lied quem investia em golpes consecutivos com as duas facas,impelindo o homem a recuar e se defender. Em dado momento, depois de vários golpes recebidos e alguns cortes feitos, o homem pareceu recobrar a atenção no combate e chutou Kennick onde tinha sido ferido antes por seu companheiro.
Recuando, Kennick gritou de dor e agora o homem investia em rápidos golpes laterais e estocadas. kennick os evitava da melhor maneira possível, pois seu ferimento latejava e pela quantidade de sangue que havia perdido, não estava mais com a sua força habitual. Se aquele combate não acabasse logo, Cistra acabaria vencendo, pois estava em melhores condições físicas e, mesmo que não fosse tão habilidoso com a espada, era só questão de tempo até o rapaz se cansar ainda mais.
Kennick recuou alguns passos para trás, como quem quisesse uma pausa para recuperar o fôlego, caiu sobre um joelho e ali mesmo ficou, de braços caídos e arfante, com o ferimento doendo e os pulmões ardendo pela falta de ar.
Cistra viu aquilo como a oportunidade perfeita, pois o Lied parecia estar fraco demais para se defender agora. Segurou a espada com as duas mãos e correu em direção ao rapaz, ergueu a espada até o alto e a fez descer num único golpe rápido, mirando a cabeça de Kennick.
Por sorte, por reflexo ou por já ter previsto a ação de Cistra, o rapaz levantou os braços com as duas facas em punho, segurando-as no alto de modo que ficassem cruzadas, fazendo a espada do homem ficar presa ali.
Agora, com a espada enganchada nas lâminas das facas cruzadas, os dois disputavam pela força. Cistra empurrava a espada para baixo, na direção do rosto do rapaz e Kennick a empurrava para cima, tentando desviar a espada de seu trajeto. Centímetro por centímetro a arma descia, cada vez mais próxima de ceifar a vida de Kennick.
Novamente o rapaz ouvia as palavras de Askelad em sua mente.
" — Dê ao inimigo uma falsa vantagem. Deixe que ele pense que está ganhando. Faça-o acreditar que você é fraco. — " Dizia o mentor do rapaz em um dos seus exemplos de como virar a sorte a seu favor. " — Quando o inimigo estiver convicto de sua vitória, surpreenda-o com um golpe inesperado."
Kennick então abriu os braços, e com a perna que estava flexionada, deu um impulso para trás, saindo do caminho da espada, que desceu e encontrou apenas o solo mole de terra molhada. Cistra se desequilibrou, pois eram as facas de Kennick que o mantinham de pé. Agora ele estava no chão e ao levantar a cabeça para ver onde o rapaz estava, tudo o que conseguiu ver foi o pé de Kennick vindo diretamente em seu rosto.
Depois disso, tudo ficou escuro para o homem.
Assim, com muito esforço, kennick conseguiu impedir o roubo do seu pouco, mas agora extremamente necessário dinheiro.
*
— Eu ouvi gritos vindos por aqui, estou dizendo. — Guardas adentravam a rua onde a luta acabara de ocorrer.
— Você está ficando louco. O céu está caindo e você preocupado com o que? com barulho? Vamos procurar logo um lugar coberto.
— Eu juro que ouvi. Anda, vamos olhar no fundo da rua, já estamos ensopados mesmo. — Disse o primeiro guarda já se adiantando na frente de seu companheiro.
— Porque os novatos tem que sempre querer mostrar serviço? — Disse o segundo guarda para si mesmo e partiu no encalço de seu companheiro logo em seguida.
Vasculharam a rua onde kennick brigou com os dois homens mas nada encontraram, nem mesmo o sangue, pois a chuva constante já tinha lavado todos os vestígios de que alguém esteve ali. O rapaz havia arrastado os corpos dos dois homens desacordados para o fim da rua, encostou-os na parede do fundo de uma padaria e os cobriu com uma enorme pilha de lixo. Quando acordassem, aqueles dois estariam tão frustrados, envergonhados e furiosos que era capaz de nem olharem mais na cara um do outro por pura vergonha.
Kennick estava em outro telhado, no lado oposto dessa mesma rua, num lugar onde se permanecesse deitado, não seria visto pelos guardas que adentravam a rua e, se levantasse a cabeça, conseguiria ver o que estava se passando lá embaixo. Conseguiu subir ali minutos antes dos guardas se aproximarem, pois como a chuva tinha diminuído, sua audição aguçada pôde captar o barulho de pessoas se aproximando. Já havia arrastado os corpos para o fundo da rua e os encostado numa parede, quando ouviu os passos e as vozes dos guardas, conseguiu se antecipar e cobriu os homens com o amontoado de lixo e se apressou em se esconder.
O problema seria se os guardas encontrassem os homens desacordados ali e esses homens mentissem sobre o que tinha acontecido. Talvez tivesse sido melhor ter matado logo aqueles ladrões. Porém, outro ensinamento de Askelad o proibia de matar a não ser que fosse extremamente necessário. Por isso a relutância do rapaz.
Se tivesse a intenção de matar, teria sido tudo muito mais fácil, pensava Kennick. Já tivera a oportunidade de matar o primeiro quando tomou sua faça e a colocou no pescoço do homem. Seu sangue Lied quase foi mais forte e sua força de vontade quase sucumbiu ao desejo de matar alguém. isso facilitaria e muito a sua fuga daquele lugar.
Também havia a questão do interrogatório, Kennick queria saber quem os mandara fazer aquele serviço, pois precisava se precaver de futuros ataques e talvez ir logo atrás do mandante. Mas sabia que interrogá-los seria praticamente impossível por vários fatores. O primeiro e mais urgente, era o seu ferimento que ainda sangrava. Assim que a briga acabou, ele arrancou a camisa de um dos ladrões e a rasgou em bandagens, cobrindo da melhor maneira que pôde o ferimento, isso diminuiu o sangramento, claro, mas não foi o suficiente para estancá-lo por completo. O segundo motivo é que não havia achado nada que pudesse usar para prender os homens, assim, quando acordassem, renderiam o rapaz e finalizariam o serviço, provavelmente até o matariam pelo ocorrido anterior. E o terceiro motivo era o perigo de ser encontrado pelos guardas, os que acabaram de chegar ou qualquer outro.
— Vamos voltar logo, idiota. Já estou achando que comecei a ficar doente. — Disse o guarda mais velho e deu um grande espirro assim que terminou de falar.
— Eu não estou ficando louco, não estou mesmo. — Dizia o primeiro guarda. — Eu sempre tive uma audição muito boa, Quando eu era criança, conseguia ouvir onde as outras crianças estavam no jogo de esconder. — Dizia enquanto vasculhava alguns sacos enormes de lixo que eram retirados de estabelecimentos.
Estavam quase chegando onde Kennick havia escondido os corpos. O rapaz, deitado de barriga para baixo no telhado do outro lado da rua, pegou uma telha solta quebrada e juntando toda força que conseguiu, arremessou o pedaço de telha em direção ao começo da rua. Por sorte, a telha caiu e se espatifou na esquina que cruzava uma rua com a outra. Os dois guardas viraram as cabeças ao mesmo tempo e partiram em disparada na direção do barulho.
kennick aproveitou a oportunidade e desceu pelo mesmo lugar por onde havia subido. Correu para o inicio da rua e antes de sair dela, verificou se os guardas não estavam por ali. Como não estavam, desatou a correr em direção a ponte que levava para o leste da cidade novamente.
O restante do percurso até a pousada foi mais demorado, pelo fato de estar cansado, ferido e ter perdido uma boa quantidade de sangue. Também era necessária a precaução de não ser visto por nenhum outro guarda ou qualquer outra pessoa até chegar à pousada. Alguns guardas faziam suas rondas normalmente mesmo sob toda aquela chuva, isso era irritante e obrigava o rapaz a se esconder em vielas e becos até os guardas que cumpriam suas rondas passassem sem o ver.
A vantagem era que com todo aquele barulho que a chuva ainda fazia, não era necessário se preocupar em se esconder como um fugitivo, qualquer lugar com cobertura ou penumbra já servia. Mas se demorasse um tanto mais para chegar, talvez sua situação fosse bem pior.
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Saudações rapazi.
O que acharam do capítulo?
Quem será a pessoa que ordenou esse ataque?
E o mais intrigante: Porque atacar o Lied? Porque agora?
Teorizem aí e me digam nas redes quais são suas opiniões.
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Twitter: @Thiagoficcoes
Se você quiser ler esse livro no Wattpad, procure por @Thiagoficcoes
É isso então por hoje, rapazi.
Fiquem bem e forte abraço.

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